VIRE AS COSTAS E SAIA CORRENDO

E está escrito: וישלח פרעה ויקרא את-יוסף ויריצהו מן-הבור Vayishlach Paroh vayikra et-Yossêf vayeritsuhu min-habór, “E o Faraó enviou e chamou a Yossêf; e fizeram-no sair precipitadamente do cárcere” (Bereshit 41:14, Mikêts). E foi no dia 2 de Tevet do ano de 5770 (19 de Dezembro de 2009), no Shabat de tarde desta parashá Mikêts que meu talmid/aluno, o Reb Yitschak, veio me visitar em casa. E ele parecia muito perturbado, o que me fez imediatamente pensar no passúk/verso desta parashá que trata do sonho perturbador que o Faraó teve, assim como escrito: ויהי בבקר ותפעם רוחו Vayehi vaboker vatipaem rucho, “Pela manhã, seu espírito estava perturbado” (Bereshit 41:8). E de fato, em seguida e sem demora, ele me pediu que o ajudasse com o sonho terrível que o perturbou tanto. Como é sabido, o sonho precisa ser interpretado por alguém que goste da pessoa, que traga uma interpretação positiva, se D-us quiser, pois o sonho é realizado em parte através do efeito da interpretação (ver Talmud, Berachot 55a). E assim ele me revelou: “Eu tive um sonho muito vívido no qual a minha própria esposa me trazia outras mulheres para me tentar! Quando diante da cena tão perigosa aonde estas mulheres me aliciavam, eu imediatamente percebi o perigo que estava acontecendo e no próprio sonho virei às costas e sai correndo”. Veja, eu disse a ele, sobre o verso ‘E fizeram-no sair precipitadamente do cárcere’, o santo Zohar diz: “Até antes do ‘incidente’ com a esposa de Potifar, Yossêf não era chamado de um tsadik/justo. Mas, depois que ele guardou o brit kodesh/o pacto santo da circuncisão somente dos judeus – não pecando com a esposa de Potifar – ele então foi chamado de tsadik” (194b, Mikêts). E o Zohar então continua, “E isto resultou em que o grau espiritual de Yessód o decorasse’, estabelecendo assim a ligação arquétipa entre Yossêf e o nível de Yessód, o nível do justo… Aquilo que estava primeiro no cárcere, a klipah, se ergueu com ele… E ele ascendeu da klipah e foi adornado com a fonte das águas vivas, a Shechina/Presença Divina”. E então eu expliquei a ele que este sonho tão ligado a parashá desta semana (e também com Vayeshev), representou um teste do seu brit, a saber, de sua força moral e capacidade de se distanciar das intensas tentações sexuais que no sonho, a sua esposa – representando a Shechina – ela mesma colocou diante de dele. E como ele passou o teste, pois “saiu precipitadamente do cárcere”, então a Shechina o acompanhou e abençoou e ele pode então ascender ao nível que ascendeu, graças a D-us. E então eu disse a ele que para cancelar um sonho difícil, o costume é jejuar e/ou dar tzedakah. E veja, a guemátria ordinal (versão sofit) de ויהי בבקר ותפעם רוחו “Pela manhã, seu espírito estava perturbado” é 199, este sendo o mesmo valor numérico da palavra צדרה tzedakah.

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ESCOLHA A VIDA

E está escrito: העדתי בכם היום את-השמים ואת-הארץ החיים והמות נתתי לפניך הברכה והקללה ובחרת בחיים Haidoti vachem hayóm et-hashamáyim veêt-haárets hachayím vehamavêt natáti lefanêicha haberachá vehaklalá uvachárta bacháyim, “Tomo hoje os céus e a terra por testemunhas contra vós, que tenho dado perante vós a vida e a morte, a bênção e a maldição; ‘escolha a vida’ etc.” (Devarim 30:19, Nitsavim). Agora, diz o profeta: כי הלבישני בגדי-ישע מעיל צדקה Ki hilbisháni bigdêi-yeshá meíl tsedacá, “Porque me cobriu com vestes de salvação e Me envolveu com o ‘manto da justiça'” (Isaías 61:10). A Torá ensina que Avraham avinu (“o patriarca Abraão“) foi o protótipo de chésed/bondade, dando tsedacápara as pessoas. Ele foi o pilar moral que o mundo se sustentava. A sua vida foi uma de se importar com os outros e de ajudá-los com tsedacá de várias maneiras. E por sua vez, esta maneira de viver o ergueu e vitalizou a níveis extraordinários. E graças a isso, Hashem considerou todos os seus atos virtuosos como pura tsedacá (ver Bereshit 15:6), dotando Avraham com um espiritual meíl tsedacá – um “manto de justiça” santo – para assim coroar a “completude de seus anos” (ver Bereshit 25:8). Uma dica disso, a guemátria atbash de מעיל צדקה meíl tsedacá é a mesma da guemátria absoluta de חיי אברהם chái Avraham, “A vida de Avraham“. Verdadeiramente, tsedacá é vida! Mais ainda, בחרת בחיים vachárta bacháyim, “Escolha a vida”, tem guemátria atbash 814. Este é o mesmo valor numérico que a guemátria milúi (“soletrar/preencher”) do Nome de D-us Sha-dái (shin-yud-nun, dalet-lamed-tav, yud-vav-dalet, ou [300+10+50] + [4+30+400] + [10+6+4] = 814). O Nome Sha-dái também corresponde ao nível na Divindade chamado de Shechiná (“Presença Divina”). Quando a pessoa dá tsedacá ela literalmente “escolhe a vida”, pois se conecta diretamente com a Shechiná, a Origem de toda a vida no universo. E assim foi com o patriarca Avraham**, e também pode ser com qualquer um, amém.

* Na verdade não é uma palavra que é melhor traduzida do Hebraico como “caridade”, mas sim como justiça. Quando ajudamos alguém com tsedacá, estamos de fato usando o “manto da justiça”.
** No primeiro contato que Hashem fez com Avraham (Bereshit 15:1), a Torá usa o Nome Santo Sha-dái/Todo Poderoso (ver também Zohar 88b, Lech Lechá).

 

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A ILUMINAÇÃO DA CONTAGEM 1

E está escrito: כאשר צוה יהוה את משה ויפקדם במדבר סיני ka’asher tsiva Hashem et-moshe vayifkedem bemidbar sinai, “Como YKVK ordenara a Moshe, contou-os no deserto de Sinai” (Bamidar 1:19). Veja: a guemátria deste verso é 2012, ou 4 x 503, o valor de המחנת ha-machanet (“o acampamento”). E a parashá relata a partir do Bamidbar 2:3 como cada uma das tribos foi colocada no deserto. Eram quatro acampamentos situados em diferentes posições, e cada machaneh consistindo de três tribos. Agora, a guemátria de Vayifkedem bemidbar sinai é 618, a mesma de בריתו beritô (“Seu pacto”). O primeiro Ráshi deste sêfer/livro e parashá diz: “E quando Ele veio a repousar a Shechina sobre eles, então Ele os contou” (Bamidbar 1:1), para assim abençoá-los. E o Zohar comenta que: “Não encontramos outra contagem em Israel pela qual eles receberam brachót dela como nesta contagem” (117b, Bamidbar). O Maguid Mesharim neste passuk/verso traz o mesmo com outras palavras: “Ele os contou para trazer para eles o poder superior da força para dirigir e interagir com eles” (Parashá Bamidbar), se referindo assim a Shechina que vitaliza e guia o povo, pois é Ela a fonte das brachot/bênçãos. E deste modo esta contagem uniu a Shechina com o Bnei Israel no alto e em baixo, querendo dizer, este foi um pacto através do qual, novas bênçãos desceram ao Bnei Israel. E a guemátria 618 (de Vayifkedem bemidbar sinai) mais três do kolel de cada uma das palavras é 621, sendo este valor igual a 3×207, o mesmo da palavra ór (“luz”, alef-vav-rêish) – um cognato da palavra Iyar (o mês quando ocorreu a contagem). O Ari”zal ensina sobre “três vezes ór” que, “Eis uma luz completa… o valor de kéter [620] mais o kolêl” (Sefer HaLikutim, Tazria). De certo a contagem trouxe a iluminação vital da Shechina, pois eles precisavam ser fortificados e guiados para se estabelecerem em acampamentos – nas divisões santas assim como é no Alto, pois como está escrito: “Esta contagem veio intencionalmente para abençoar, mas com a intenção também de aperfeiçoar a completude dos mundos” (ibid. Zohar). E também, sobre o tempo da contagem: “‘No primeiro dia do segundo mês, no segundo ano’ [Bamidbar 1:1]… Este mês [Iyar] é chamado de Ziv [‘brilho’], aludindo ao mês iluminado… quando tudo é um… e de onde emana e irradia o brilho para o mundo” (ibid. Zohar). E mais: ברוך ה’ לעולם אמן ואמן Baruch Hashem leolam amen ve-amen, “Seja para sempre bendito Hashem, amém e amém” (Tehilim 89:53) tem guemátria 618 também. Este verso significa a luz de chochmah. Mas, “O brilho de Iyar é de guevurah e de chochmah no lado de guevurah, indicando a harmonia do lado direito/Nissan e esquerdo/Iyar, ‘quando tudo é um’” (ibid. Zohar).

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NAQUELE DIA SEU NOME SERÁ UM

E como está escrito: “No futuro, o Sagrado, abençoado seja Ele, retornará com a Shechina para Sua posição, tal como tudo se encontrará em união, assim como escrito: ‘Naquele dia Hashem será Um e Seu Nome Um’ [Zechariah 14:9]. E se agora você questiona: ‘Mas Ele não é Um?’ Não, pois os perversos causam desuniões: a Shechina se distancia do Rei, e Eles não se encontram então unidos. A Ima supernal se encontra distante do Rei e não o nutre, pois o Rei sem a Rainha não é coroado com as coroas de Ima, como ele costumava ser no princípio, quando Ele ela unido com Ela com várias coroas, inúmeras luzes, com as coroas supernais… Quando Ele se une com a Rainha, a Ima supernal apropriadamente coroa Ele, e quando não ela toma as coroas de volta, impede as fontes dos rios e Ele não é parte de uma conexão e assim não é encontrado como Um, por assim dizer” (Zohar 77b, Acharêi Mot). O assunto aqui é profundo, tratando de uma dinâmica fundamental do tikkún olám/retificação do mundo. Veja, a união do Sagrado, abençoado seja Ele e a Shechina é expresso misticamente pelos partsufim (“conjunto sefirótico”) de Z’eir Anpin e Nukva. Quando eles estão unidos “face a face”, o fluxo integral de bênção recai sobre a criação. Esta união depende essencialmente das mitsvot, da vida santificada e reta dos judeus. Quando os judeus vivem suas vidas focadas na Torá, isto tem um efeito celestial de trazer brachot para Israel e também para o mundo, que depende disso. Agora, quando é dito que Z’eir Anpin e Nukva estão “de costas” um para o outro, implica-se a posição menos favorável desta dinâmica, e deste modo, o fluxo da beneficência Divina é severamente limitado. Ou seja, a atenção e energias não estão focadas um no outro, por assim dizer. Esta desunião causada pela rejeição da vida reta e digna tem grandes consequências na realidade. Além das várias dificuldades que provêm da ausência das bênçãos, ergue-se também a oportunidade primária para os poderes do mal de roubarem esta força vital que de outro modo deveria vir como benevolência para os “súditos do Rei”. Não viver uma vida santa implica em dar forças para as klipot e a ramificação disso é a pobreza material no mundo físico. As luzes superiores/bênçãos “descem” até Malchut através de Z’eir Anpin (em particular de Yesód de Z.A.). Malchut ou Nukva (ou seja, o aspecto feminino, pois Malchut é um recipiente, tal como um útero que precisa das “sementes” de Z.A. para poder procriar e florescer). Malchut é a nossa realidade conhecida. Se existem impedimentos que causam desunião entre as luzes sefiróticas e o recipiente final de Malchut, a força do fluxo Divino é prejudicado como dito e Malchut fica “carente” (pobre). O estado de união, do Nome YKVK é o de face a face, e representa o ideal que existiu no Gan Éden até antes do pecado. O mesmo ocorreu no Sinai até o chet/pecado e com o Beit HaMikdash também. Mas, com a destruição deles e a queda espiritual subsequente, a desunião dos partsufim se “instalou”, e deste modo a nossa realidade de hoje é uma de severidades, a saber, a expressão do julgamento, ou seja, do Nome Elokim. De modo psicológico e igualmente pertinente, quando dizemos que Z’eir Anpin e Nukva estão de costas um para outro, implica-se que as emoções (Z’eir Anpin) estão em algum grau divorciadas ou desconectadas de seus meios de expressão (Malchut é aonde tudo na realidade se expressa). Esta desconexão marcante é facilmente observada nas pessoas que não aceitam tikkún, tendo como característica as dificuldades de expressão de seus sentimentos e incoerências das suas ações. Sem a inspiração engendrada por um estado de união entre as emoções/psique e as ações retificadas, o caos impera, permitidos deste modo que as klipot se “agarrem” e roubem a força vital já prejudicada pelos erros de pensamento, emoções e ações, “amargando-a”. Isto se reflete na vida das pessoas com seus tsa’arot/problemas, na falta de completude da realidade. Mas, algo profundamente significativo desta reconexão fundamental ocorre no grande presente de Hashem para o Bnei Israel: o Shabat. Isto é assim, pois mesmo minimamente, o judeu que cumpre Shabat vivencia um estado mais elevado de realidade – unido e retificado, emocionalmente eletrizado, e deste modo ele experimenta um “gosto” da Era Messiânica: quando ‘Hashem será Um e Seu Nome Um’. Existem muitas outras considerações. Em particular, o assunto de Ima que o Zohar traz significa que acima das emoções (Z’eir Anpin) existe o fluxo da mentalidade Divina (Ima é o partsuf de Binah). Com a desunião, a própria mentalidade das pessoas fica corrompida, confusa e repleta de severidades, pois o intelecto não é alimentado pela força santa de Binah. De fato, as klipot afetam fortemente o fluxo de entendimento que provém da mente, pois deste modo têm influências sobre os julgamentos das pessoas. E quanto mais severos estes juízo são, mas existem as machloket/brigas entre as pessoas etc., impedindo a kedusha/santidade e assim as brachot de chegarem até elas. Isso afeta a sua fé e confiança em YKVK, causando todo um ciclo de queda espiritual. É vital usar todas as forças possíveis para empurrar para fora as klipot e fazer mituk hadinim (“adoçamento dos julgamentos”). E o ponto central do ataque das klipot é a auto ilusão. Saiba isso bem.

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PRONTO PARA A CURA

Que as palavras deste shiur tragam Refuah Shleimah/Cura Completa para

Yitzchak Hersh ben Sarah Leah

Na oração de shacharit/manhã de 22 de Nissan de 5769 (parashat Shemini, yom chamishi), no Kriyat HaTorah/Leitura da Torá, o Reb Lipe fez um pedido na Torá para um Mi sheberách/Oração de cura para mim. Incrivelmente, imediatamente eu me senti melhor. E por que afinal não seria assim? Na época do Beit HaMikdash/Templo Sagrado, milagres ocorriam todo o tempo. A Shechina/Presença Divina estava tão próxima de nosso povo, que bastava o judeu rezar para Hashem, que um milagre poderia acontecer de imediato. E como explica o Shlach HaKadosh, “O homem foi criado b’tselem Elokim/na imagem de D-us, uma combinação do físico e do espiritual; as duas partes precisam trabalhar em conjunto… Libi uvsari leranenú el kEl chai, ‘Meu coração e todo a minha alma gritam em alegria para o D-us vivo’ [Tehilim 84:3]… O corpo da pessoa adquire vários graus de santidade de acordo com o cuidado tomado em selecionar o que ela come etc. [e neste Salmo vemos que] o corpo está alinhado com a alma” (parashat Shemini). Para um judeu que trabalha de fato para promover o alinhamento entre o seu aspecto físico e o espiritual de acordo com as halachót/leis da Torá, o seu coração se torna como o kodesh kodashim/sagrado dos sagrados, aonde a própria Shechina reside. Sendo assim, seu contato com Hashem é muito menos obstruído pela klipah/forças antagônicas à santidade, permitindo – se este estado de alinhamento é verdadeiro e no grau e nível particular da pessoa – “acesso” a algum grau superior do poder infinito e transcendental de Hashem na maneira em que este poder e luz são investidos no mundo, no Mikdash que é o seu corpo. E de fato, no kodesh kodashim, o local mais santo deste Mikdash, que é o seu coração. Veja, seu próprio coração é o portal da Shechina que tanto o vivifica como o permite ligar-se a Ela, pois a Shechina é a fagulha Divina que dá vida à alma. Portanto, diante da prece e desejo do indivíduo, e de sua real força e vigor para cumprir o avodat Hashem/serviço a D-us, como no caso de pedir refuah shleimah para alguma pessoa, imediatamente ele “toca” neste poder que então a cura, se D-us quiser. O mesmo é verdadeiro para outras bênçãos. Mas nada é tão íntimo e passivo de ser sentido de imediato do que o bem estar da luz de D-us se difundindo com maior vitalidade no corpo e alma da pessoa – uma verdadeira revelação Divina. E este dia foi especial, pois sendo o Sétimo dia da contagem do Ômer, a sefirá é Malchut sheb’Chessed, que significa o “recebimento da bondade”. Ou seja, neste dia descrito e tão propício, o “tema” é o do saber receber benevolências. E de fato, eu recebi a bondade de uma aspecto da cura, baruch Hashem/graças a D-us. Mais ainda, todas pessoas também podem e devem recebê-la, mas isso se estiverem prontas para a cura, a saber, alinhados com Hashem que é o Curador do mundo.

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