A ARTE DA GUERRA

E está escrito, “Quando saíres à guerra contra os teus inimigos, e o Eterno, teu D-us, os entregar em tuas mãos, e deles levares cativos, e vires entre os cativos uma mulher formosa, a desejares e a tomares para ti por mulher, então a trarás para dentro de tua casa, e ela raspará a sua cabeça e deixará crescer suas unhas. E tirará o vestido de seu cativeiro de sobre ela, ficará em tua casa e chorará a seu pai e a sua mãe um mês, e depois estarás com ela, desposá-la-ás e será para ti por mulher” (Devarim 21:10-13, Ki Tetsê). Grandes segredos são ocultos nestes versos da Torá. Veja, o homem bom, que é ligado às coisas de D-us, sempre precisa estar de guarda, pois afinal, “na porta jaz o pecado” (Bereshit 4:7). E quando este homem, que busca servir a D-us, sai e se defronta com o mundo repleto de perigos espirituais, ele se vê diante de uma guerra, assim como dito, “Quando saíres à guerra contra os teus inimigos…”. E nestes caminhos da vida, quando ele colide com os inimigos de D-us, que são de incontáveis espécies e naturezas distintas, muitas vezes nestas batalhas “O Eterno, teu D-us, os entrega em tuas mãos, e deles levas cativos”, a saber, a pessoa “prende” os malfeitores, subjugando-os. Isso ocorre quando ela não cede de forma alguma às pressões que estes bandidos espirituais exercem através de suas seduções, porque esta resistência à transgressão remove a força-vital que os nutre. Contudo, quando o indivíduo exerce este domínio nos inimigos, algum aspecto destas forças malignas poderá sobreviver em seu coração e mente. Isto é assim, pois este terá sido um aspecto particular do inimigo que se uniu com a própria natureza imperfeita e desejos não retificados deste homem, e de modo tão íntimo, que então este poder continua em algum grau e nível a ecoar na sua mente e vontades mais interiores. Isto é chamado de “E vires entre os cativos uma mulher formosa, a desejares e a tomares para ti por mulher”. Veja, “desejar tomar por mulher” é um código místico para a intensa vontade de se dar vazão ao desejo despertado pelo força maléfica que se investiu na pessoa quando ela presumiu prematuramente que já a tinha derrubado e eliminado. E a Torá ensina o que fazer com este desejo pelo indevido, que enfim começa a crescer dentro da pessoa: “Então a trarás para dentro de tua casa, e ela raspará a sua cabeça e deixará crescer suas unhas”. A pessoa deve identificar esta força que a assola para que este inimigo cruel não mais se oculte nela, porque somente depois de identificá-lo será então possível lutar frontalmente contra ele. Saiba que este ímpio buscará se ocultar nas racionalizações e desvios de consciência da pessoa, pois é sabido que a luz das ações retas e dignas da Torá remove toda a escuridão. Portanto, é da natureza deste poder nefasto alojado no coração do homem (e que sobreviveu ao confronto inicial que afinal o “trouxe para dentro de tua casa”, a saber, de seu coração), que ele busque ficar removido de qualquer escrutínio moral, protegendo e ignorando desta forma o inimigo que se oculta nas trevas da psiquê. E destas trevas, ele sussurra “vozes estranhas” com a intenção única de seduzir a pessoa para que ela venha a pecar. E podemos ver o cerne deste combate interior nas palavras da Torá: והבאתה אל-תוך ביתך וגלחה את-ראשה ועשתה את-צפרניה Vahaveta el-toch beitecha veguilcha et-rosha veasta et-tsiparneiha, “Então a trarás para dentro de tua casa, e ela raspará a sua cabeça e deixará crescer suas unhas”. A guemátria ordinal de Vahaveta el-toch beitecha é 138, a mesma de מחץ “machucar/quebrar”, enquanto que a guemátria katán de veguilcha et-rosha veasta et-tsiparneiha é 101, a mesma de אכף achaf, “pressionar/esmagar”. E por fim, a guemátria ordinal de והבאתה אל-תוך ביתך וגלחה את-ראשה ועשתה את-צפרניה “Então a trarás para dentro de tua casa, e ela raspará a sua cabeça e deixará crescer suas unhas” é 491, a mesma de טבחת tavachta, “abater/matar”. A força alojada é revelada no coração o que imediatamente expõe suas fraquezas, “machucando e quebrando” seu poder. Depois, quando a pessoa busca extirpar este mal interior, este desejo retificado “pressiona e esmaga” este mal como um inseto. E esta guerra então tem o desfecho final, “abatendo e matando” sem piedade qualquer resquício final desta praga. E quando isso ocorre, a roupagem espiritual desta força é removida, assim como dito, “E tirará o vestido de seu cativeiro de sobre ela, ficará em tua casa”, e este poder maligno caído e agora sem forças, clama por misericórdia: “E chorará a seu pai e a sua mãe um mês”, que são as fontes de seu poder na sítra áchra (“o lado do mal”). E somente então, quando expurgado este mal, o bom homem recebe a bênção pelo seu feito heroico, e a fagulha divina deste mal é nele incorporado, elevando-a e a ele também, assim como é dito: “E depois estarás com ela, desposá-la-ás e será para ti por mulher”. E foi assim que certa vez (em 26 de Nissán 5771) eu vi as letras kuf-lamed-hei-nun sofít brilharem na testa de um melámed (“professor” na escola judaica), muito especial, religioso e digno. E quando meditei entendi que o tserúf/anagrama destes letras em Hebraico formavam a palavra niklah (nun-kuf-lamed-hei), significando humilhado/degradado (como no Devarim 25:3, nesta parashá santa). Verdadeiramente, este homem reto havia travado uma grande luta interior, humilhando e degradando a sua má inclinação. E agora, pelo poder Divino, a sua alma refletia estas luzes de vitória abençoada.

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RECEBIMENTO

E está escrito: ראשית דגנך תירשך ויצהרך וראשית גז צאנך תתן-לו Reshit degancha tiróshcha veyitsharecha vereshit guez tsoncha titen-lô, “As primícias de teu grão, de teu mosto e de teu azeite, e a primícia da tosquia de tuas ovelhas, darás a Ele” (Devarim 18:4, parashá Shofetim).  Agora, existe um aspecto quântico sobre o desenvolvimento (binah) de uma ideia (chochmah), que será explicado com a ajuda do Céu. Veja, cada desenvolvimento de uma ideia altera os insights (ou seja, os “grãos”) originais desta, mesmo se existindo um forte desejo e foco para tentar preservar estas iluminações primárias e tão puras. Isto é assim, pois algum desvio sempre ocorre uma vez que binah é a origem dos julgamentos (guevurah). Ou seja, esta força intelectual-racional de binah separa/julga “entre” (bêin em Hebraico, e a raiz da palavra binah) uma ideia e outra, alterando assim a luz inicial de chochmah. É por esta razão que o resultado de algum entendimento de Torá é sempre diferente da visão intuitiva (chochmah) sobre estas luzes antes de sua descida para serem “julgadas”, ou seja, desenvolvidas racionalmente pela mente.

Agora, a física quântica, através do princípio de incerteza de Heisenberg, afirma que não podemos determinar com precisão simultânea a posição e o momento de uma partícula, deste modo, quanto mais precisamente se mede uma grandeza, forçosamente mais será imprecisa a medida da grandeza correspondente. Em outro nível, ao tentar trazer as iluminações de chochmah (insight/intuição) para “baixo” (ou seja, para o intelecto racional/binah), elas mesmas são afetadas e alteradas, portanto não é possível ter a ideia no nível de chochmah e binah simultaneamente, sem que haja algum desvio como explicado. Quando estas luzes elevadas chegam em binah, por assim dizer, elas lá fazem “sentido” mesmo diante da impossibilidade de capturar totalmente os insights de chochmah. De fato, elas geram inclusive emoções que surgem decorrentes do perceber nas diferenças entre os níveis mentais de chochmah e binah. Isto é assim, pois neste nível de expressão, a raiz intelectual destas emoções ainda é consciente em algum grau e nível. Ou seja, estas primeiras emoções que surgem a partir de uma ideia compreendida, tem raiz direta, portanto, perceptível ainda na própria ideia – como se a emoção fosse “consciente” de sua origem no intelecto. Quando buscando interpretar o entendimento de Torá, o indivíduo faz uso destas emoções para assim tentar “capturar” aspectos mais puros de chochmah que possam estar sendo modificados no grau de binah/racional. Desta maneira, a pessoa se “recusa” a aceitar imediatamente o seu próprio processo racional, buscando níveis mais altos e intuitivos. Contudo, esta dinâmica intelecto-emocional não significa necessariamente que as tentativas subsequentes tenham o sucesso ideal desejado de conseguir identificar e explorar as inspirações originais, pois novamente, estas tentativas também afetam a compreensão (e sua expressão na fala, escrita etc.) do entendimento de Torá, assim como explicado também sobre o princípio de incerteza de Heisenberg. Mas, o esforço emocional na tentativa de garantir a integridade das luzes originais é vital, pois isto é uma luz ela mesma que é chamada de Ór Hozer (“A luz que retorna/refletida”). De fato, ela retorna ao “alto” e se difunde na mentalidade mais elevada, afetando assim a mente, chegando até ao nível mais alto do intelecto que é kéter – a origem das vontades. Este é um processo fundamental de amadurecimento em geral e também da própria ideia enraizada na kedusha/santidade do estudo e revelações da Torá em questão. Deste modo, quando a luz dos insights toca o nível emocional, por assim dizer, ela retorna para o séchel/intelecto no grau de chochmah com novo vigor – reenergizado e expandindo/amadurecendo o séchel. Isto não significa que a mesma estrutura mental possa ser integralmente recuperada, mas sim que novas vertentes dos insights poderão ser reveladas devido à expansão da mente causada pela Ór Hozer, ou até mesmo novos insights dentro da mesma estrutura original, causados por um novo fluxo. Em última instância, a matriz original (ou seja, as primeiras ideias que formaram o pensamento sobre um assunto em questão) se expande antes de ser desenvolvida em binah. Isto é amadurecer. É importante afirmar que a inspiração essencial de chochmah não é perdida, baruch Hashem. E por isso o tempo é (praticamente) irrelevante para o indivíduo conectado com a Torá em termos da lembrança da estrutura original das ideias. E a pessoa pode então guardar esta matriz na mente, pois ela detém os pontos de luzes essenciais. O desenvolvimento no nível em que ele ocorrer, opera então como uma ferramenta intelectual que “abre e expande” estes insights originais mesmo em um tempo posterior, sempre que necessário se D-us quiser.

Agora, quando esta intensa dinâmica mental é unicamente causada pela ligação sincera e profunda do indivíduo com o estudo da Torá sem vestígio algum de motivos ulteriores (como a busca por sabedoria, kavód/desejo por reconhecimento etc.), então todas as “sementes originais” do pensamento representam uma real oferenda a Hashem. Elas então são literalmente as “primícias de teu grão, de teu mosto e de teu azeite, e a primícia da tosquia de tuas ovelhas”, entregues em devoção passional a Hashem, pois elas “darás a Ele” em primeiro lugar. E quando isso ocorre, a pessoa então recebe entendimentos do Céu, o reflexo da bênção de Hashem que ilumina a pessoa. E somente quando isto ocorre, existe real “recebimento”, que em Hebraico é קבלה Cabalá, com guemátria absoluta 137, a mesma da guemátria katán de todo o verso sobre as primícias.

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ABRINDO OS OLHOS DA MENTE

O aluno principal do Ari”zal, o Rabino Chayim Vital, de abençoada memória, ensinou: “Meu mestre, o Ari’zal, disse que cada mandamento é associado com uma das 22 letras do alfabeto Hebraico, e que quando alguém cumpriu uma mitsvá, a letra associada com aquela mitsvá brilha na sua testa, substituindo a letra que brilhava na sua testa relativa a mitsvá anterior que ele cumpriu. A letra permanece na sua testa somente enquanto ele está cumprindo a mitsvá com a qual ela é associada. Depois disso, ela é absorvida dentro dele. Mas, se ele cumpre a mitsvá de tsedaca, a letra associada a ela não desaparecerá rápido quanto as letras associadas com outras mitsvót, mas sim, continua a brilhar na sua testa por toda a semana. Este é o sentido místico do verso וצדקתו עמדת לעד Vetsidkatô omédet la’ád, ‘Sua retidão [tsedacá] dura para sempre’ (Tehilim 111:3”. Agora, a tsedacá vai ainda mais longe, por assim dizer. Quando a pessoa faz tsedaca, a sua própria consciência é enaltecida e expandida, literalmente. A ela se torna mais claro, em algum nível e grau, vários aspectos sobre a realidade que encobre às verdades espirituais da Torá. A pessoa se torna mais espiritualmente sensível e elevada. E veja, a guemátria absoluta do Tehilim citado, Vetsidkatô omedêt la’ad, é igual a 1224. Este é o mesmo valor numérico do verso אכן יש ה’ במקום הזה ואנכי לא ידעתי Achên yesh Hashem bamakóm hazé veanochí lô yadáti, “Certamente o Eterno está neste lugar, e eu não sabia” (Bereshit 28:16), dito quando Ya’acov despertou de seu sono (após sonhar com a escada). Deste modo, podemos interpretar este verso e a sua ligação com a tsedacá da seguinte maneira: quando a pessoa dá tsedacá, ela então “desperta do sono”, que representa a realidade inconsciente e que encobre as verdades da Torá. E através deste despertar, ela então alcança um nível espiritual maior para assim perceber que, “Certamente o Eterno está neste lugar, e eu não sabia”, ou seja, antes de ter feito tsedacá. E quando a pessoa cresce espiritualmente ela então terá maiores condições de seguir o que Hashem instrui nesta parashá santa: ראה אנכי נתן לפניכם היום ברכה וקללה Reê anochí notên lifnêichem hayóm berachá u’kelalá, “Veja [literalmente]: Eu coloco diante de você uma bênção e uma maldição etc.” (Devarim 11:26. parashá Reê). Verdadeiramente, os “olhos da mente” se abrem através da tsedacá, algo muito sabido pelos iniciados.

Aula recomendada: REÊ 5771

 

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AFUGENTANDO OS ÍMPIOS

E está escrito: ואכלת את-כל-העמים אשר ה’ אלקיך נתן לך לא-תחוס עינך עליהם ולא תעבד את-אלהיהם כי-מוקש הוא לך Veachalta et-kol-haamim asher Hashem Elokeicha noten lach lo-tachos encha aleihem velo taavod et-eloheihem ki-mokesh hu lach, “E consumirás todos os povos que o Eterno, teu D-us, te entregar; teus olhos não terão piedade deles e não servirás aos seus deuses, pois isto seria por cilada para ti” (Devarim 7:16, Êkev). Mesmo os judeus cumpridores das mitsvót e tementes a D-us podem ser afligidos pelos machshavót zarót – os “pensamentos estranhos” que provêm do lado do “mal que cerca os justos” (ref. Tehilim 37:32), “bombardeando” os homens durante as orações e outros atos retos. Misticamente, os machshavót zarót são o aspecto da força espiritual das outras nações do mundo. E como é possível então subjugar estes pensamentos que distraem toda a pessoa ligada a Torá do seu serviço a D-us ? De fato, continua esta parashá santa, “Se disseres em teu coração: ‘Estas nações são mais numerosas do que eu, como poderei desterrá-las?’” (ibid. 17). É preciso se lembrar que Hashem rebaixou a sítra áchra/o domínio do mal no cativeiro do Egito, e ao rebaixar estas forças nefastas, o Povo de Israel viu com seus olhos da carne as maravilhas e milagres que se revelaram para eles. E num aspecto disso, a pessoa precisa usar a força de sua imaginação retificada para enxergar estas luzes santas com os olhos da mente. Verdadeiramente, Ele é o D-us único que cuida daquele que O teme. E assim como continua a parashá, “Não as temerás! Lembrar-te-ás do que o Eterno, teu D-us, fez ao Faraó e a todo o Egito; as grandes provas que os teus olhos viram, os sinais, os milagres, a mão forte e o braço estendido com que o Eterno, teu D-us, te fez sair; assim o Eterno, teu D-us, fará a todos os povos aos quais temes” (ibid. 17-19)”. O poder de Hashem cuida e abençoa o indivíduo reto com estas “luzes” – fluxos de bênçãos de redenção – que assim “empurram e abatem” os ímpios – de dentro e de fora da pessoa – rebaixando e afugentando-os em seu profundo temor do Povo de Israel (que á mentalidade retificada) e também dos que amam e protegem estes santos. Afinal, este é o povo que recebeu tantas instruções santificadoras da Torá, como להבדיל בין הטמא ובין הטהר ובין החיה הנאכלת ובין החיה אשר לא תאכל “Para separar entre o impuro e o puro, e entre o animal que é para comer e o animal que não se deve comer” (Vayicra 11:47), de guemátria absoluta 2166, a mesma de ואכלת את-כל-העמים אשר ה’ אלקיך נתן לך “E consumirás todos os povos que o Eterno, teu D-us, te entregar”.

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