O FIM DO EXÍLIO

Certa noite meu grande iedíd/amigo HaRav/O Rabino Moshe T. veio me visitar como faz ocasionalmente. Nossa conversa foi excelente como sempre. No final, eu pedi para ele abrir uma página do Sêfer Yalkut Reuvêni tal como um gorál/loteria. E ele então abriu aonde abriu, na parashá Vayetsê (desta semana) e leu uma linda passagem: “Quando Ya’acov avinu viu que o sol tinha se posto ele recebeu ruach hakódesh/inspiração divina e viu o fim da galút/exílio e imediatamente fez tefilah [de ma’ariv/a reza da noite]” (Página 241, baseado no Bereshit 28:11). Eu então disse que foi diante do nês/milagre do sol ter desaparecido que Ya’acov imediatamente rezou, assim como está escrito na, Halevái Ve’Adam Yessader Tefilotáv Kól HaYóm Kúlo, “Que dirá o homem rezasse o dia todo” (Talmud, Berachot 21a). E o Rav Moshe seguiu dizendo que a tefilah/oração é lashón/uma expressão de conexão com Hashem, ele citou o nome Naftali (um dos filhos de Ya’acov). Depois que ele se foi, eu encontrei no Zohar que “A Shechina/Presença Divina também é chamada de Tefilah uma vez que todo o propósito da tefilah é se conectar a Hashem, como o nome Naftali” (Ra’ya Mehemna Zohar Chadash III 223:1; 253:1 no assunto de נפתולי אלקים נפתלתי, Naftúli Elokím Naftúli). De fato, esta expressão (Naftúli Elokím Naftúli) significa “Com uniões divinas eu me uni”, aludindo ao conceito de conexão e que o caminho do Divino é unido e trazido para baixo na materialidade do mundo. Afinal, cada conceito da Torá necessita ser trazido para o grau da ação, a palavra Torá sendo derivada de hora’ah, significando “instrução”. E o sofêi tevót desta expressão são as letras יםי (yud-mem sofít-yud), com guemátria absoluta (versão sofít) de 620. Enquanto os mandamentos bíblicos são 613, existem de fato 7 ordenamentos rabínicos, para um total de 620. Os cabalistas explicam que a palavra em Hebraico para coroa (כתר kéter) tem o valor numérico de 620, a soma dos mandamentos bíblicos e os rabínicos. Vemos que no “fim” (ou seja, a ideia de sofêi tevót sendo as “letras finais” da expressão em questão) das “uniões divinas que eu me uni” existem os mandamentos que são somente realizados no nível da realidade física, deste modo retificando-a e apressando assim a vinda do verdadeiro Mashiach que então terminará este processo santo. Uma noite elevada.

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ÁGUAS PROFUNDAS

E está escrito: “O despertar de amor do homem pela mulher é da coluna da esquerda/guevurah: ‘A Sua mão esquerda está debaixo da minha cabeça’ [Shir HaShirim 8:3]. A escuridão que é guevurah e a noite que é nukva/feminino são como um, pois a esquerda sempre desperta amor em nukva e se segura nela. Portanto, apesar de que Avraham amava Sarah, não está escrito sobre ele: ‘E ele a amou’, mas somente sobre Yitschak, a coluna da esquerda. Entretanto, se for dito que ויאהב יעקב את-רחל Vaye’ehav Ya’acov et-Rachel, ‘Ya’acov amou Rachel’ [Bereshit 29:18, Vayetsê], apesar dele não ser a coluna da esquerda, isso é assim, pois o lado de Yitschak foi sim incluído dentro dele. Veja: Quando Avraham viu Sarah ele apenas a abraçou, como escrito: ‘A sua mão direita me abraça’ [ibid. Shir HaShirim]… e quando Ya’acov chegou, ele cumpriu os seus deveres conjugais e disso vieram as doze tribos, tudo como deve ser. E os patriarcas viveram por um segredo: cada um deles teve o ‘serviço de quatro’ esposas [representando chochmah, binah, tiferet e malchut de nukva de Z’eir Anpin, as emoções celestiais]. Avraham também teve quatro esposas: Sarah, Hagar, e duas concubinas… está escrito concubinas, significando duas juntos com Sarah e Hagar… e tudo para os patriarcas no fim se realizou no segredo da kedusha” (Zohar 133a-b, Chaiyê Sarah). E o amor referido aqui é sempre sincero e intenso. A guemátria absoluta (mispar hechrachi) de Vaye’ehav Ya’acov et-Rachel mais os kolelím das quatro palavras é (845 + 4 =) 849, o valor da palavra tehomót (“profundas”) como em “águas profundas”, Shemot 15:5 e 15:8. (Ver o Rashi in loco).

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A LUZ ESCURA

E está escrito sobre o patriarca Yitschak, quando Essav seu filho perverso entrou subitamente na sua tenda: Vayecherad Yitschak charada guedola ad-meód vayomer mi-êifo hu… “Yitschak estremeceu um grande tremor e disse: Quem é e onde está aquele que caçou uma caça e trouxe para mim etc.” (Bereshit 27:33). O Ba’al HaTurim ensina que a palavra êifo (“onde está”) tem guemátria 98, a mesma de Guehinom (“Inferno”). E ele termina a explicação dizendo: “E isto implica que o Guehinom entrou junto com Essav”. E sobre isso, vejo uma explicação psicológica sobre o contato que temos com cada pessoa. E eis que cada pessoa tem um ór makif, uma “luz circunvolvente”. Certas pessoas têm uma óbvia presença (algumas mais do que outras), e os rashaim/perversos tem uma força tão intensa neste sentido – diretamente oposta aos tsadikim/justos – que invoca temor. Como é sabido, até mesmo Moshe Rabeinu (“Moisés nosso Mestre”), nossos sábios explicam, receava o ór makif dos perversos. Na linguagem “popular”, este conceito se tornou não somente o da “aura” da pessoa, mas de sua “bagagem” emocional também. Portanto, neste verso, o Ba’al HaTurim nos ensina que Essav tinha um fortíssimo (e negativo) ór makif, assim trazendo toda a sua força do mal naquele exato instante. Por isso Yitschak tremeu, pois esta luz era como a do Guehinom.

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UM ANJO AO SEU LADO

E está escrito, שלשה אנשים נצבים Shelosha anashim nitsavim, “Três homens estavam parados perto  dele (Bereshit 18:2). Estes são os três malachim/anjos que vieram visitar Avraham. Saiba que a a pessoa pode estar no nível próximo ao de um anjo e mesmo assim se misturar com outros que não percebem qualquer diferença entre ele e eles mesmos. De fato, uma pessoa mais espiritualmente elevada do que outra mais grosseira, comumente faz (e assim deve fazer) muitos esforços de shalom/paz para se comunicar com ela. Não é nada fácil fazer isso, porque quando este esforço é feito, a pessoa menos refinada nem ao menos percebo o amor que lhe está sendo estendido, achando que assim é mesmo como deveria ser ‘conversado’ o assunto em questão. No entanto, este esforço requer uma grande força – guedulah/grandeza que é o poder de chéssed/bondade – e uma ‘licença’ pedida no coração a Hashem pelo nível que é preciso descer para se comunicar com outro ser humano. E em minha de’ah/opinião isto representa o agir como um anjo, porque ainda que esteja vestido em “roupagens humanas”, tem a sua missão naquele momento. E toda missão é um avodah/serviço espiritual. Quando o anjo se aproxima da pessoa, é para servi-la de algum modo. Veja, a guemátria atbash (mais três do kolel de cada palavra) de Shelosha anashim nitsavim é igual a 942. Esta é a guemátira da palavra וישרתוך vishartucha “te servir” (Bamidbar 18:2. Note que o verso que tratamos aqui é o Bereshit 18:2). E a raiz da palavra vishartucha é שר sar/ministro angelical.

E talvez alguém ainda perguntasse, mas para que fazer este tipo de esforço tão difícil? E a minha resposta é que a pessoa (ou anjo?) assim emula a Hashem, assim como está escrito sobre o passuk/verso, “Sigam a D-us” (Devarim 13:5): “A Ele vocês se ligarão [tidbakun]. E como pode uma pessoa de fato seguir e aproximar-se da Divina Presença? Emule-O em Suas qualidades” (Talmud, Sotah 14a). Quando a pessoa desce de seu nível para lidar com outra que assim precisa, ela emula o atributo de humildade de Hashem, pois Ele também “desce”, por assim dizer, permitindo que a Sua Glória seja oculta na criação para que todos os seres possam então viver as suas vidas como assim aprenderem ser melhor. E tudo segue de acordo com a providência Divina.

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PAI E FILHO

E está escrito: Vayomer Avraham, “E disse Avraham” (Bereshit 22:8, Vayerá). Vayomer é guemátria 258 (257 + 1 do kolel), a mesma de Vaavadô leolám ועבדו לעלם, “e ele servirá Ele para sempre” (Shemot 21:6), a essência de ser devoto, verdadeiramente, um ôved Hashem, “servo de D-us”. E Avraham é guemátria 249 (248 + 1 do kolel), a mesma de arachem (“eu mostrarei misericórdia”). Sobre o sacrifício que deveria ocorrer, Yitzchak acabava de perguntar a seu pai: “Eis o fogo e a lenha, e onde está o cordeiro para a oferta de elevação?” (verso 7). Imediatamente, antes dele se pronunciar a Yitzchak, a Torá nos ensina algo sobre sua mente: Vayomer Avraham é a voz de YKVK que afirmou para ele: “Seja devoto! Eu mostrarei misericórdia”. Avraham não mentia, chaz v’shalom. Como pôde afirmar categoricamente para o seu filho, quem estava prestes literalmente a ser sacrificado, que YKVK ainda proveria uma oferenda em seu lugar? Avraham estava sendo guiado diretamente por YKVK. E ele escutou a voz Divina, pois era um profeta – fosse à voz de seu maguid/anjo guia, um malach/anjo do Criador. Não importa. Se porventura hesitou em algum único instante, agora não tinha mais dúvida alguma que o seu filho amado seria salvo. E Avraham só precisava ir em frente para revelar e confirmar seu yirat Hashem/temor a D-us neste ato reto. E assim disse: Elokim yire lo hasse leolah beni. Vayelchu sheneihem yachdav, “D-us proverá para Si o cordeiro para a oferta de elevação, meu filho. E andaram ambos juntos” (verso 8). E sobre este “andar junto” (uma expressão que a Torá usa duas vezes aqui, no verso 6 e no 8), explica o Rashi: “Avraham, tinha consciência que iria sacrificar o seu filho, mas estava indo [para o sacrifício] com a mesma vontade e alegria de Yitzchak que não era consciente do assunto” – eles estavam com o mesmo “estado de espírito”, de união e equilíbrio. Assim, foram ao local da oferenda, Avraham constrói o altar, arranja a madeira, prepara seu filho, pega a faca e quando estende sua para sacrifica-lo, o anjo de YKVK o impede e afirma: Ki yireh Elokim atah, “Eu sei que você teme a D-us”. O Zohar em Vayerá explica que agora Avraham estava perfeito, com ambas as midót/atributos de caráter de chéssed/bondade e guevurah/rigor, o yirat Hashem. E o mesmo para Yitzchak, pois sua guevurah foi “adoçada”, o elemento de chéssed uma vez que foi submisso ao sacrifício. Eu acredito que o passuk הנה האש והעצים ואיה השה לעלה Hine ha-esh ve’haetsim veaye hase leola, “Eis o fogo e a lenha, e onde está o cordeiro para a oferta de elevação?” (Bereshit 22:7) etc. contenha inúmeros segredos. De fato, a guemátria desta expressão toda (mais os 6 kolelim para cada palavra) é igual a 1060 – a mesma de תסתר taster, “oculte” como em “Não ocultes de mim Tua face” (Tehilim 27:9). E o nome da malka/rainha Éster vem de ocultação/héster, pois como é sabido, o Shem Havaya/Nome de D-us não aparece reveladamente na Meguilat/Carta de Éster. E talvez temos aqui um rêmez/dica que o cordeiro estava oculto e Yitzchak já sabia disso. Então porque a pergunta? Em outro nível, talvez foi uma forma de hastarat panim/ocultação da face Divina mesmo para um tsadik gigante como Yitzchak avinu, apenas de modo temporário. Aliás o Shem Kodesh/Nome Santo que Avraham usa em seguida é Elokim, implicando em um grau de ocultação de YKVK. Ou seja, Avraham que é a midat chéssed teve a revelação da voz Divina sobre o akedat Yitzchak (e que YKVK seria misericordioso) para que ele se erguesse com o ato de severidade com seu filho e assim se retificasse por completo: Ki yireh Elokim atah.

Agora, para Yitzchak que é a midat guevurah/atributo da severidade, foi o contrário. Sua percepção santa e apurada precisou ser ocultada para que deste modo ele não visse com seu ruach hakodesh o korban/oferenda que seria substituído por ele, e assim se subjugasse completamente neste momento para se completar através da midat chéssed/atributo da bondade. E pelo outro lado, Yitzchak avinu se submeteu com alegria e crendo que tudo era de acordo com o ratsón/desejo Divino. Ele era um mekabel yissurin/um “recipiente” perfeito para aceitar os julgamentos divinos. E só uma pessoa que recebe um yissur/juízo divino e acha que é injusto e não se submete com alegria “cria”, por assim dizer, a ocultação da face Divina. Existem tantas perguntas sobre este momento sublime. Vi também que Avraham deu uma tochachá/admoestação em Yitzchak pela pergunta que ele fez, porque ele se quer devia tê-la feita. Algo como se Avraham tivesse dito a ele: “Esta pergunta é errada, pois significa que você está usando conhecimento e expectativas do passado sobre como as coisas deveriam ocorrer. Aqui estamos diante de um momento completamente novo, de uma mitsvá. Olhe somente para frente. Quem sabe mais revelações virão destes mistérios, com a ajuda do Céu.

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