E AVRAHAM DISSE

E está escrito: ויאמר אברהם אלקים יראה-לו השה לעלה בני וילכו שניהם יחדו Vayomer Avraham Elokim yirelo hase leola beni vayelchu sheneihem yachdav, “E Avraham disse: ‘D-us proverá para Si o cordeiro para a oferta de elevação, meu filho’; e andaram ambos juntos” (Bereshit 22:8, Vayerá). Imediatamente antes de responder ao seu filho Yitschak (que havia perguntado no verso anterior, “aonde está o cordeiro para a oferenda?”), a Torá diz Vayomer Avraham, “E Avraham disse…” – uma expressão ocultando a sua disposição mental neste intenso momento psicológico com seu filho. Vayomer com um para o kolel, tem guemátria 258, sendo este o mesmo valor numérico de Va’avadô leolám, “E ele servirá Ele para sempre” (Shemot 21:6), o modelo do servo devoto de D-us. E Avraham mais o kolel é guemátria 249, o mesmo valor numérico de ארחם arachem, “Eu mostrarei misericórdia” (Shemot 33:19). Veja, isto foi a voz de Hashem falando para o patriarca Avraham: “Seja devoto! Eu mostrarei misericórdia”. O poder espiritual de ויאמר אברהם Vayomer Avraham é imenso. A sua guemátria ordinal 91, sendo este o mesmo valor numérico do Nome Havayah (o Tetragrama/YKVK, com guemátria 26) e o Nome Adni (guemátria 65), que é a Shechina/Presença Divina, combinados: Havayah (yud-hei-vav-hei, 10 + 5 + 6 + 5) = 26; Adni (alef-dalet-nun-yud, 1 + 4 +50 + 10) = 65. 26 + 65 = 91. Avraham estava em devekut/ligação íntima com Hashem. Seu foco estava na união do Sagrado, abençoado seja Ele e Sua Shechina – fonte חיי chaiyê “da vida”, com guemátria katán (28) de Vayomer Avraham. Mais ainda, o reshêi tevót/acróstico de todo este passúk/verso (ואאילהלבושי) tem guemátria 401, sendo esta o mesmo valor numérico de ישעיהו Yeshayahu, “Salvação de Kah/D-us” (o nome em Hebraico do profeta Isaías). Vemos que o Akedát Yitschak/Sacrifício de Isaac é verdadeiramente a narrativa da salvação que D-us realiza no mérito dos patriarcas. Salvação é a libertação da morte – a preservação da חיים chayim “vida” (chet-yud-yud-mem = 8 + 10 + 10 + 40 = 68), também a guemátria ordinal de Yeshayahu. De fato, esta história é cheia de vida.

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A ABDUÇÃO DA MATRIARCA

E está escrito: וינגע ה’ את-פרעה נגעים גדלים ואת-ביתו על-דבר שרי אשת אברם Vayenaga Hashem et-Paro negaim guedolim ve-etbeitô al-devár Sarái êshet Avram, “E o Eterno infligiu ao Faraó e à sua casa grandes pragas por causa de Sarái, mulher de Abrão” (Bereshit 12:17, Lech Lechá). Como a Torá traz nesta parashá santa, devido a uma severa fome na terra, Avram (e não Avraham, que só começou a ser chamado assim mais tarde na parashá) e sua família precisaram viajar para o Egito, aonde havia abundância de recursos. O patriarca Avram era um homem sábio e reto, e que já havia tido contato com Hashem, elevando-o espiritualmente ainda mais. Sua percepção sobre a realidade era avançada, então de modo a prevenir possíveis problemas, ao entrarem no Egito pediu a sua esposa Sarái (e não Sarah, que só começou a ser chamada assim mais tarde na parashá) que afirmasse ser a sua irmã e não sua esposa. Avram sabia que os Egípcios eram idólatras e que não se guiavam por nenhum código moral que os impedisse de sequestrar Sarái se soubessem que ela era esposa de Avram. Agora, como irmã dele, talvez eles a deixassem em paz. No entanto, quando os Egípcios viram a beleza extraordinária de Sarái, ela acabou sendo levada à casa do Faraó. E ele a desejou. Contudo, ולאברם היטיב בעבורה Ule’Avram heitiv baavurá, “E ele tratou Avram bem por causa dela” (Bereshit 12:16), pois presumiu (uma vez que as mulheres era desvalorizadas em sua sociedade) que isso seria o suficiente para que o patriarca se apaziguasse e então julgasse o Faraó para o bem, ainda que sua esposa tivesse sido roubada. De fato, o Faraó ainda deu a Avram muito gado e servos, na esperança de subornar os sentimentos do santo homem. Mas, Avram sabia por inspiração divina quem era este mestre da sitra achra/lado do mal. Uma dica disso, a guemátria absoluta deste passúk/verso é 600, o mesmo valor numérico de שקר shéker, “mentira”. E a Torá relata que foi então que Hashem puniu o Faraó e toda a sua casa, por sequer “ousar” a pensar em tocá-la. E o Ráshi explica sobre על-דבר שרי al-devár Sarái, “por causa de Sarái etc.”, que “Através da palavra dela [vieram as punições]. Ela instruía o malach/anjo: הך hach, ‘Bata!’, e ele então [obedecia e] batia neles”. O Faraó era ligado às “forças da externalidade” (o “Mal”) que somente existem recebendo nutrição mínima “por de trás/posteriormente” (אחוריים ahorayim) da Santidade (como se jogando comida pelas costas com desprezo), assim como podemos ver quando ele inicia a fala com Avram: ויקרא פרעה Vayicrá Faro, “Chamou o Faraó…”, com guemátria atbash 633, a mesma de ahorayim. E continua a Torá revelando o espanto do Faraó que disse: מה-זאת עשית לי Ma-zót assita li, “O que foi que você fez comigo?” (Bereshit 12:18), com o reshei tevót/acróstico (מזעל)  que forma a expressão ע מזל ayin mazal, significando “o ‘Nada Divino’ [Hashem] é a raiz espiritual”. E o fim deste verso למה לא-הגדת לי כי אשתך הוא Lama lo-higadta li ki ishtecha hiv, “Porque você não me contou que ela era sua esposa”, tem o sofêi tevót/letras finais האתייךא com guemátria absoluta 927, a mesma de ממקור ישראל mi-mekór Israel, “da fonte de Israel”. Portanto, a perplexidade do Faraó ocultava que ele entendeu sobre Avram e Sarái que “Hashem é a raiz espiritual da fonte de Israel“. E apesar que Faraó estava atemorizado pelas pragas que o afligiu, ele não reconheceu a Hashem, o D-us de Avram. Rapidamente, ele mandou escoltá-los para fora do Egito como relata a Torá (no verso 20). Mas veja, o reshêi tevót do verso וינגע ה’ את-פרעה נגעים גדלים ואת-ביתו “E o Eterno infligiu ao Faraó e à sua casa grandes pragas” é ויאפנגוב, com guemátria albam 589. Esta é a guemátria absoluta (versão sofít) de ואבימלך ve’Avimélech, “E Abimélech“. Mais ainda, na sequência do verso, o reshêi tevót de על-דבר שרי al-devár Sarái é עדש, com guemátria atbash 109, a mesma também da guemátria absoluta de ואבימלך ve’Avimélech, “E Abimélech“! Em um nível oculto, a Torá nos alerta sobre um personagem que até então não havia surgido: Abimélech. Além disso, outra dica sobre o futuro aparece aqui: a guemátria absoluta de הך hach, “bata” é 505, sendo esta a mesma de שרה Sarah, mas não Sarái (שרי), como a matriarca ainda era chamada neste relato do Faraó, pois esta mudança ocorreria somente no futuro.

E tempos depois (ver parashá Vayeira), após a destruição de Sodoma e Gomorra (Bereshit 19:24-25), Avraham e Sarah viajaram novamente (para se distanciar finalmente de Lóte). Eles foram para Guerrár, na terra dos Filisteus. Contudo, antes de entrar nesta terra, Avraham pressentiu que precisava evitar que sua esposa Sarah fosse abordada por este povo. Os Filisteus (Heb. Pelishtim) eram conhecidos pela sua grande indulgência sensual e adoração de todo o panteão Cananeio. Agora, o nome פלשתים Pelishtim é derivado da raiz pêi-lamed-shin, significando “indulgência exagerada”. A sensualidade excessiva neste mundo faz a pessoa espiritualmente fechada/tampada, resistente à inspiração Divina e insensível à realidade interior da vida e suas experiências. Avraham sabia disso, pois Hashem estava com ele e o inspirava divinamente. E foi então que אבימלך מלך גרר Avimélech mélech Guerrár, “Abimélech rei de Guerrár” (Bereshit 20:2) mandou aprisionar Sarah. E a guemátria absoluta deste verso é 596, a mesma de איש-מרמה ish-mirmah, “homem mentiroso/enganador” (Tehilim 43:1), um segredo sobre sua natureza. Apesar que Avraham não pôde impedir novamente esta abdução, Hashem estava com ele e sua esposa Sarah. E Hashem apareceu em um sonho para Abimélech, dizendo que ele morreria por ter sequestrado Sarah. De fato, “Abimélech nunca se aproximou dela, pois era impedido por um anjo” (Ráshi no Bereshit 20:4). O rei de Guerrár então falou com Hashem, clamando sua retidão Noética, a qual o mantinha longe das transgressões. Mas, Hashem afirmou para ele que sem a ajuda Divina, ele sim teria pecado. Hashem então ordena a Abimélech que retorne Sarah, e chama Avraham de profeta, dizendo que ele rezará por Abimélech para que as pragas cessem. Ainda assim, perturbado com estas experiências, Abimélech tenta argumentar com sabedoria e razão a seu favor com Avraham, afirmando sua (suposta) retidão: ויקרא אבימלך Vayicrá Avimélech, “Chamou Abimélech…”, com guemátria albam 1200, o mesmo valor numérico de duas vezes שקר shéker, “mentira” (indicando suas mentiras). E continua a Torá revelando o espanto de Abimélech que diz: מה-עשית לנו Me-assíta lánu, “O que foi que você fez conosco?” (Bereshit 20:9), com reshêi tavót לעמ la’Am, “para o povo”, pois Abimélech muito se incomodou que Avraham suspeitou que seu povo teria roubado sua esposa, sendo algo proibido pelas Sete Leis Noéticas – um crime com pena capital. E Avraham então responde: כי אמרתי רק אין-יראת אלקים במקום הזה Ki amárti rak êin-yirát Hashem bamakóm hazé, “Porque eu pensei que verdadeiramente, o temor a Hashem não existe neste local” (verso 11). O reshêi tevót deste verso (כאראיאבה) tem guemátria avgad 365, revelando profeticamente o número de mitsvót/mandamentos proibitivos (“não farás”) dados a Israel no Sinai. Um local aonde o temor a Hashem realmente existe é aonde não se transgride nenhum destes mandamentos. Portanto, Avraham, um nome com guemátria absoluta 248 (assim como o número de mandamentos positivos, “farás”), representa a completude no serviço Divino que só um profeta tem, pois 365 + 248 = 613 mitsvót. A Torá traz a sabedoria e razão de Abimélech, mas Avraham não se dobra a isso, pois ele entendia que apesar destas sabedorias inferiores, Abimélech e seu povo não tinha temor a Hashem. De fato, o santo Zohar afirma que “Abimélech e seu povo adoravam a estrelas e constelações. Abimélech era um astrólogo” (140b, Toledot). Ele e seu povo não eram Noéticos verdadeiros, ainda que assim se afirmassem. E por isso, o verso conclui: והרגוני על-דבר אשתי vaharaguni al-devár ishtí, “eles me abateriam por causa de minha esposa”, com guemátria ordinal 172, o valor numérico de duas vezes o Nome אלקים Elokim, que é associado aos julgamentos severos. E todo aquele que se encontra em situação de perigo, seus méritos são examinados. E assim, Avraham temeu por sua vida naquele momento. Enfim, a moral é que aonde o temor de Hashem não existe, a sabedoria e conhecimento abstrato da lei não são suficientes para sobrepujar a má inclinação. E para um reto, todas estas realidades são reveladas, e ele sempre as influencia, mesmo quando mantém uma postura calma de paz e tranquilidade, pois ה’ ילחם לכם ואתם תחרשון Hashem yilachem lachem veatem tacharishun, “O Eterno lutará por vós, e vós fiqueis calados!” (Shemot 14:14), com gemátria ordinal (mais cinco do kolel de cada uma das palavras) igual a 243, o mesmo valor numérico de אברם Avram.

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NOVA CONSCIÊNCIA

E foi quando Nôach e sua família sairan da Têva/Arca que Hashem então disse: אך-בשר בנפשו דמו לא תאכלו Ach-bassár benafshô damô lo tochelú, “Porém, a carne com sua alma estando com vida e seu sangue, não comereis” (Bereshit 9:4, Nôach). Agora, está escrito também que ותמלא הארץ חמס Vatimale ha-árets hamás, “E a terra estava cheia de violência” (Bereshit 6:11, Bereshit). A guemátria mais o kolel de cada palavra é igual a 884, a mesma de תועבות toevót, “abominações”. Os sábios explicam estas abominações como a corrupção sexual até mesmo dos animais, e também o roubo. E o reshêi tavót/acróstico תהח tem guemátria 413 (e atbash 151). E guemátria 413 é a mesma de חשקה hashka, “desejo” indicando o foco exclusivo desta geração. Mais ainda, o sofêi tavót/letras finais é 151 (que é atbash 413, portanto as guematriót são invertidas, indicando outros sentidos ocultos). E 151 é guemátria de מקטב m’kéteb, “com destruição” e מאכלכם ma’kalechem, “a carne” (em Aramaico, ver Daniel 1:10), todas dicas profundas sobe esta época dramática. De fato, Adam e toda sua geração não era permitido nem de comer carne. Mas, isso era verdade no sentido de abater um animal para ser comido. Os meforshim/comentaristas da Torá ensinam também que, se fosse encontrado um animal morto (Heb. nevilah), este poderia ser comido. Veja, a geração do Mabúl/Dilúvio era abertamente perversa, porque somente procurava prazeres (e a nossa geração atual assim caminha também). Eles comiam de modo natural, pois havia grande abundância de frutas, ervas, raízes, além de outras formas vegetais. Entretanto, sua dieta naturalista incluía algo mais: animais eram comidos vivos. Veja, este era um tempo inimaginável em que convivam bnêi Elokim/anjos caídos, shedim/demônios, gigantes, homens e mulheres (as canaítas como Na’amah a irmã de Tuval-Kayin, descendentes diretos de Cain, eram conhecidas por sua depravação moral e grande tamanho).

Agora, “Nôach estudou Torá” (Ráshi no Bereshit 7:2, citando o Bereshit Rabah 26:1 que afirma que de outro modo, ele não poderia ter sabido quais animais eram destinados a serem permitidos para o Bnêi Israel/Povo Judeu). Portanto, ele conhecia a proibição de comer carne. E mesmo sabendo também as leis de abate ritual da Torá, ele não comia carne, porque a permissão não havia sido dada por Hashem. Entretanto, tão prevalecente era comer seres vivos – nas batalhas ou não – que quando Nôach saiu da Arca, Hashem deu então a permissão de comer carne ao homem, porém a mitsvá negativa de Ever Min Hachai, “Não comer o membro de um animal vivo” precisou ser dada para civilizar o mundo (junto com a proibição de “não matar”), pois Nôach e os seus viram sempre este modo de vida dos incontáveis perversos da geração e isto precisava ser desenraizado completamente das suas psiquês para que uma “nova consciência” fosse então herdada pela humanidade. E incrivelmente, vemos a dica do desenraizar da consciência coletiva destes hábitos violentos na guemátria absoluta do reshêi tavót (אבבדלת) do verso “Porém, a carne com sua alma estando com vida e seu sangue, não comereis” é 439. Este é o mesmo valor numérico da expressão עריצי גוים aritsêi goyim “nações violentas/cruéis” (Ezequiel 30:11). Hoje temos também, “nações violentas”, e seu destino será o mesmo de seus antepassados, tudo de acordo com o Plano Divino, amém.

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O CAÇADOR

A arrogância é a raiz de todos os pecados no mundo. E como está escrito: והנחש היה ערום מכל חית השדה אשר עשה ה’ אלקים Vehanáchash haya arúm mikól chayát hassadê ashér assá Hashem Elokim, “E o serpente era astuta – mais do que qualquer animal do campo feito por YKVK” (Bereshit 3:1). Eis a raiz do mal que é o Serpente, que vive em tocaia no coração do homem – a sua má inclinação. O Serpente descende do lado esquerdo que é Guevurá/Severidade (guímel-bet-vav-rêish-hêi = 3 + 2 + 6 + 200 + 5 = 216), sendo 216 o mesmo valor numérico do reshei tavót/acróstico (והעמחהאעיא) deste passúk/verso. Saiba que ele é astuto, pois sempre busca domínio e “asenhoramento” de todas as formas sobre o seu território – a existência do homem. Uma dica disso, a sua descrição como sendo ערום arúm, “astuta” tem guemátria albam 96, a mesma de Kel Adni/D-us é meu S-nhor (Kel: alef-lamed = 1 + 30 = 31. Adni: alef-dalet-nun-yud = 1 + 4 + 50 + 10 = 65. 31 + 65 = 96), um Nome Divino associado ao Olam HaAsiyah/o mundo material e presente, o qual a má inclinação arrogantemente urge em dominar.

Agora, quando o Serpente sente a presença da vítima potencial – do coração prestes a se inflar pelo orgulho e arrogância – ele então sai de sua tocaia e se revela gritando: “Pois YKVK sabe que, no dia em que comerdes do fruto proibido, vossos olhos se abrirão e sereis como YKVK, conhecedores do bem e do mal” (Bereshit 3:5). E enquanto e por um instante a pessoa pensa sobre o que está prestes a fazer e sentir, ouvindo o encanto do serpente, ele abre progressivamente a sua grande e feroz mandíbula e na primeira oportunidade, dá o bote. O serpente engole a vítima – a sua consciência – de um só golpe. E quando a sua mente é assim envolvida, a pessoa vivencia uma profunda escuridão, seus pensamentos se entortam e predomina a distorção da auto ilusão. Ela nada percebe, salvo o que estritamente lhe interessa e pertence ao seu delírio. O veneno do serpente alimenta a sua auto ilusão no momento em que qualquer dúvida surge. A pessoa se vê rendida e ao mesmo tempo abnegada diante de seu encobrimento existencial. Enquanto isso, passeando pelo jardim, o caçador de serpentes avista à distância uma vítima engolfada pelo mal. Apesar da pessoa se mostrar feliz em seu sonho e delírio, a sua alma implora por ajuda e o caçador é ordenado pelo Alto a tentar ajudá-la se for possível. Se aproximando com cautela, o caçador prepara a sua arma, “Uma corda [que o aprisionará] está oculta sob o solo, e uma cilada sob seu caminho” ( 18:10). E ele sabe que quando o serpente o avistar “Terror o cercará e o paralisará. Suas forças serão consumidas pela fome e a calamidade estará sempre a seu lado” ( 18:11) e o serpente lutará fortemente e não abandonará a pessoa até que “Devorará os membros de seu corpo” ( 18:13) fazendo dele sua posse. De longe ainda, o caçador de serpente pergunta a vítima encoberta: “Que fizeste?” – e a ela respondeu: A serpente me enganou e comi” (Bereshit 3:13). E o caçador entende o significado disso: a pessoa se perdeu na sua vontade, inflou seu coração e perdeu controle de sua mente. Ela permitiu ser devorada pelo serpente que se alimenta da consciência e distorce as verdades, para que a pessoa então perca o seu caminho. Ao se perder, ela agora é como os que “Desde o nascimento se rebelaram, os ímpios que se desviaram do caminho certo, os mentirosos” (Tehilim 58:4). E sem discernir o certo do errado, portanto vagando nas suas percepções sobre o que a separa de YKVK, “Seu veneno se assemelha ao de uma serpente, ou a uma víbora surda que fecha o ouvido para não ser detida pela voz de encantadores ou dos que sussurram palavras agradáveis” (Tehilim 58:5). Ela mesma resiste ao caçador. A luta dele agora é contra o serpente e a consciência da pessoa que se aquece no falso calor desta fera que o domina, enraizada em seu coração, alimentando sua distância à retidão e santidade. A fera a segura com vigor, mas o caçador compreende sua natureza. Ele usa sua corda rapidamente lançando-a sobre a cabeça do serpente, prendendo-o com força. Ele ruge como uma besta indomável. Mostra as suas presas perigosas: “Com escárnio e zombaria me insultaram. Rangeram seus dentes contra mim” (Tehilim 35:16). E “O perverso trama contra o justo e range seus dentes para ele” (Tehilim 37:12). O caçador pede ajuda a YKVK: “Ó Eterno, quebra seus dentes e esmaga suas presas, que são como as de leões” (Tehilim 58:7). E se enchendo por um espírito de indignação contra o mal, afirma: “O ímpio, porém, ao ver o que acontece se sentirá revoltado; inutilmente rangerá seus dentes e terá frustrada sua ambição” (Tehilim 112:10). Uma grande luta terrível entre o caçador abençoado e a consciência escrava da pessoa, que se condói por si mesma em cada movimento dele para liberá-la da fera que a domina. Ele segura firme na cabeça do serpente – a fonte do seu mal – e abre sua boca para que de suas presas saia o veneno que será usado mais tarde como antídoto. A consciência reluta: dói em orgulho e reclama muito, pois agora iludida, prefere escuridão à luz. Mas, “Ai dos que chamam o bem de mal e o mal de bem, que confundem luz com escuridão e escuridão com luz, o amargo com o que é doce e o doce com o amargo” (Isaías 5:20). E o caçador não desiste jamais e consegue sim muitas vezes subjugar esta escuridão e tolice, assim como é prometido: “E a escuridão ficará sob seus pés” (Tehilim 18:10). E por fim em um ato heroico, ele “Quebra a mandíbula do injusto e arranca a presa de seus dentes” ( 29:17). A consciência da pessoa retorna. Machucada, ela entende agora o ocorrido. Grata, ela sabe que o serpente voltou para a sua tocaia no coração, mas com o antídoto do caçador existe uma chance ao menos de que em tempo, com humildade verdadeira e aprendizado, toda vez que o inimigo surgir, “Quando estiverdes em guerra em vossa terra contra seu inimigo que vos oprime, então tocareis as trombetas com força e sereis recordados diante de YKVK, e sereis salvos dos vossos inimigos” (Bamidbar 10:9), amém.

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