NOVA CONSCIÊNCIA

E foi quando Nôach e sua família sairan da Têva/Arca que Hashem então disse: אך-בשר בנפשו דמו לא תאכלו Ach-bassár benafshô damô lo tochelú, “Porém, a carne com sua alma estando com vida e seu sangue, não comereis” (Bereshit 9:4, Nôach). Agora, está escrito também que ותמלא הארץ חמס Vatimale ha-árets hamás, “E a terra estava cheia de violência” (Bereshit 6:11, Bereshit). A guemátria mais o kolel de cada palavra é igual a 884, a mesma de תועבות toevót, “abominações”. Os sábios explicam estas abominações como a corrupção sexual até mesmo dos animais, e também o roubo. E o reshêi tavót/acróstico תהח tem guemátria 413 (e atbash 151). E guemátria 413 é a mesma de חשקה hashka, “desejo” indicando o foco exclusivo desta geração. Mais ainda, o sofêi tavót/letras finais é 151 (que é atbash 413, portanto as guematriót são invertidas, indicando outros sentidos ocultos). E 151 é guemátria de מקטב m’kéteb, “com destruição” e מאכלכם ma’kalechem, “a carne” (em Aramaico, ver Daniel 1:10), todas dicas profundas sobe esta época dramática. De fato, Adam e toda sua geração não era permitido nem de comer carne. Mas, isso era verdade no sentido de abater um animal para ser comido. Os meforshim/comentaristas da Torá ensinam também que, se fosse encontrado um animal morto (Heb. nevilah), este poderia ser comido. Veja, a geração do Mabúl/Dilúvio era abertamente perversa, porque somente procurava prazeres (e a nossa geração atual assim caminha também). Eles comiam de modo natural, pois havia grande abundância de frutas, ervas, raízes, além de outras formas vegetais. Entretanto, sua dieta naturalista incluía algo mais: animais eram comidos vivos. Veja, este era um tempo inimaginável em que convivam bnêi Elokim/anjos caídos, shedim/demônios, gigantes, homens e mulheres (as canaítas como Na’amah a irmã de Tuval-Kayin, descendentes diretos de Cain, eram conhecidas por sua depravação moral e grande tamanho).

Agora, “Nôach estudou Torá” (Ráshi no Bereshit 7:2, citando o Bereshit Rabah 26:1 que afirma que de outro modo, ele não poderia ter sabido quais animais eram destinados a serem permitidos para o Bnêi Israel/Povo Judeu). Portanto, ele conhecia a proibição de comer carne. E mesmo sabendo também as leis de abate ritual da Torá, ele não comia carne, porque a permissão não havia sido dada por Hashem. Entretanto, tão prevalecente era comer seres vivos – nas batalhas ou não – que quando Nôach saiu da Arca, Hashem deu então a permissão de comer carne ao homem, porém a mitsvá negativa de Ever Min Hachai, “Não comer o membro de um animal vivo” precisou ser dada para civilizar o mundo (junto com a proibição de “não matar”), pois Nôach e os seus viram sempre este modo de vida dos incontáveis perversos da geração e isto precisava ser desenraizado completamente das suas psiquês para que uma “nova consciência” fosse então herdada pela humanidade. E incrivelmente, vemos a dica do desenraizar da consciência coletiva destes hábitos violentos na guemátria absoluta do reshêi tavót (אבבדלת) do verso “Porém, a carne com sua alma estando com vida e seu sangue, não comereis” é 439. Este é o mesmo valor numérico da expressão עריצי גוים aritsêi goyim “nações violentas/cruéis” (Ezequiel 30:11). Hoje temos também, “nações violentas”, e seu destino será o mesmo de seus antepassados, tudo de acordo com o Plano Divino, amém.

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O UNICÓRNIO

O Rambam traz que: “Um unicórnio [uma espécie de antílope dos tempos Talmúdicos, ver Chulin 59b] é considerado uma besta selvagem, apesar de ter somente um chifre [shofar]” (Hilchot Ma’achalot Assurót, Pérek 1, Halachá 12). Meus olhos se fixaram na expressão do Rambam, ve’ha-kéresh, “E um unicórnio…” (vav-hei-kuf-rêish-shin), de guemátria 611. Com mais o kolel da palavra, temos 612 que é guemátria de ברית brit/pacto. E veja: Falta um ‘chifre’ para ser um animal completo. De fato, kéresh é um tserúf/anagrama de shéker (“mentira”). De modo ainda mais essencial, a palavra kéresh tem guemátria 600, um número importante nesta semana, pois “Nôach tinha 600 anos de idade e o Mabúl/Dilúvio das águas veio sobre a terra” (Bereshit 7:6). E como é sabido, “O mundo não foi completado e estabelecido até que Avraham surgisse” (Zohar 117a, Bamidbar). Faltava um homem, um shofarAvraham – para completar o mundo. E na leitura de hoje, a parashá traz o késhet, “arco-íris” (kuf-shin-taf) que tem duas letras em comum com kéresh. E a forma do késhet era de um shofar. E isto é ligado aos toques do shofar, pois do reshêi tavót/acróstico de KéSHeT/arco-íris temos: teKiah, SHevarim, Teruah, os três toques do shofar. Quando Hashem escuta o shofar, Ele é lembrado do brit feito com Nôach (ver Zohar 215a, Pinchas).

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A ECOLOGIA ORIGINAL

Está escrito: “Rav Chana bar Bizna disse: Eliezar, o servo de Avraham, certa vez disse para Shem, o filho de Nôach: Está escrito, ‘pelas suas famílias, saíram da Arca’ implicando que cada espécie foi cuidada individualmente na Arca. Agora, e vocês? Como conseguiram cuidar da tarefa de prover a cada espécie com suas necessidades peculiares? Shem disse a Eliezar: Na Arca nós aguentamos muitas dificuldades. Qualquer criatura que por hábito era alimentada à noite, nós a alimentamos à noite. E com respeito à criatura chamada de zikita [Rashi: um pequeno pássaro como uma codorna], o Pai Nôach não sabia o que ela comia, portanto não pode alimentá-la. Assim, certo dia ele se sentava e cortava uma romã, quando um verme pulou da fruta e o zikita pulou e comeu o verme. Daí em diante, Nôach sempre amassava farelo de soja com água para o zikita, e quando a mistura dava vermes, o pássaro a comia” (Talmud, Sanhedrin 108b).

Isto ilustra o trabalho e cuidado extremo que Nôach tinha para garantir de prover precisamente a cada espécie suas necessidades específicas. Disso tudo pensei o seguinte: qual lição tiramos deste relato quando aplicamos o princípio de Ma’asei avot simon l’bonim, “as ações/experiências de nossos patriarcas são um sinal e prognóstico para todos os seus descendentes no futuro”? A lição é que Nôach e os seus ensinaram os princípios fundamentais da Ecologia, a saber, o estudo das relações que os organismos vivos têm uns com os outros e seu ambiente natural. A revelação Talmúdica sobre os vários cuidados de Nôach são parte e de fato engrandecem o escopo da mitsvá de אבר מן החי (êiver min hachái/não comer uma parte ou todo um animal vivo), mostrando que é preciso ir além do não maltratar um animal, e sim estabelecer uma relação de cuidado e respeito com cada um deles. Mais ainda, o relato Talmúdico pode ser entendido com uma metáfora da relação da Providência Divina com toda a humanidade. Nôach representa a humanidade e ele cuida com respeito e dignidade do meio ambiente e os seres vivos, do mesmo modo que a Providência Divina cuida da humanidade e de fato, de toda a criação. A lição então é que a mitsvá êiver min hachái estabelece a cerca menor da relação com as criaturas, querendo dizer, se você não cuidar do ambiente, protegendo-o bem como as suas criaturas, então saiba que no mínimo é terminantemente proibido maltratar um animal vivo, pois ninguém pode corromper a verdade da criação em todas as suas formas (sem ser punido). De onde segue que o descaso com o meio-ambiente (ba’al tashchit), todas as atitudes antiecológicas são igualmente corrupções da fundação do mundo. Prejudicar o meio ambiente é como manchar e retirar assim algo da essência e fundação dele enquanto “ele é vivo e ativo”, ou seja, diminuir a sua verdade. E como Elokim é guemátria de HaTeva, vemos que a natureza é uma “luva” para Hashem, mas é Ele igualmente. Portanto, corromper a natureza equivale à blasfêmia. Daí entendemos a ligação da fundação/Yessód/brit com a boca/blasfêmia. Pois de fato, a boca/língua e o órgão procriador são duas manifestações inter-relacionadas do pacto único da união entre D-us e o homem (ver Darósh Darásh pág. 194-195). O tikkún para ambos é a submissão à Providência Divina. Uma pessoa que cuida do seu brit/Yessód protege assim o recebimento das bênçãos de D-us que a sustenta e aos seus. E uma pessoa que entende isso e recebe com amor o sustento de Hashem não ousa a destruir ‘a verdade da natureza’ (blasfêmia) que traz sustento às criaturas que Hashem providencia. Uma pessoa que verdadeiramente acredita e vive sua fé na Providência Divina é “ecológica” por definição. Ela jamais se torna um ba’al tashchit em qualquer grau.

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