TIO E SOBRINHO

Existe uma dimensão sutil sobre Lote e o assunto dele ser paguem habrit (“profanar o pacto”). A guemátria de הפרד נא מעלי hipared na me-alai, “Por favor se separa de mim” (Bereshit 13:9) é 490, a mesma de יפת Yafet, o filho de Nôach. O Ari”zal explica que “Yafet personifica a sefirah de Yessód [que é o brit]” (Sha’ar HaMitsvot, Nôach). Contudo, Lote descende de Shem e não de Yafet. Veja, ele é filho de Haran ben Terah. E Terah era filho de Nahor, filho de Serug. E Serug era filho de Reu ben Peleg. Agora, Peleg era filho de Éber, quem por sua vez era filho de Salah ben Arphaxad. E Arphaxad era filho de Shem, o filho de Nõach). Portanto, na minha de’ah/opinião, Lote não é um guilgul de Yafet, mas o tema do brit é algo importante na sua vida. Até porque, associado a Avraham (quem retificou o brit), este tema é evidente na dinâmica entre eles. Eu creio que Avraham sabia que Lote tinha um caráter “instável”. De fato, o reshit tavót de hipared na me-alai são as letras הנמ, guemátria 95: a mesma de פחז pachaz, “instável” (como em pachaz k’mayim/águas instáveis, Bereshit 49:4). Depois que Lote foi para Mitsrayim/Egito, ele se perdeu moralmente e então saiu de lá, mas Avraham avinu logo percebeu que ele havia profanado seu brit nos “deleites da cidade”. E quando mais tarde ele viu que seu sobrinho não se indignou com a atitude perversa dos pastores dele (Bereshit 13:8-11), a “gota final”, ele então achou melhor que cada um deles fosse para um lado oposto, evitando que a contaminação de ideais e comportamentos de Lote penetrasse sua casa santa. Este foi um momento dramático de “definição espiritual”. De fato, a guemátria ordinal deste passúk (Bereshit 13:9) é 112, a mesma de יבק Yabók, o rio que simboliza a batalha entre o bem e o mal, aonde Ya’acov avinu lutaria aos depois com o anjo de Essav (Bereshit 32:23-33). Deste modo, existe outra dimensão a ser explorada sobre a separação de Avraham e Lote, que explica algo mencionado anteriormente. Em outro shiur, eu havia dito que a separação de Lote tinha um elemento da compaixão/misericórdia de Avraham. Baseado no Ari”zal (Likutêi Torá, Vezót HaBracha), vemos que “As iniciais das palavras ‘Eles colocarão incenso nas Tuas narinas’ [Yasimu Ketorah b’Apecha] soletram Yabók… E mais ainda, a guemátria da palavra para incenso [ketorah] com o kolel é a mesma do Nome Ekyeh mais a guemátria da palavra para ‘com misericórdia’”. Para explicar, ketorah (kuf-tet-vav-rêish-hêi, 100+9+6+200+5) = 320, mais um para a palavra (o kolel), temos 321. A guemátria do Nome Ekyeh (alef-hêi-yud-hêi, 1+5+10+5) é 21; e a expressão “com misericórdia” (berachamim, beit-rêish-chet-mem-yud-mem, 2+200+8+40+10+40) é 300; juntos temos, 21 + 300 = 321. Continuando, “O Nome Havaya significa o atributo de misericórdia de Hashem. Este Nome em guemátria atbash é mem-tsadik-pêi-tsadi, o valor numérico de 300. Este é o mesmo valor da palavra berachamim. O Nome Ekyeh significa o atributo de justiça severa de Hashem… Queimando o incenso causou o Nome Havaya de ser combinado com o atributo da justiça. Isto é aludido na palavra incenso, como mencionado”. Ou seja, a palavra para incenso usada no verso (ketorah) é numericamente igual a soma do Nome Ekyeh (21) mais “com misericórdia” (300), ou seja, a união dos Nomes Ekyeh e Havaya (este último sendo numericamente incluído nesta equação através do seu valor numérico em atbash). O ponto da luta entre o bem e o mal (aqui trazido no arquétipo de Yabók e a luta de Ya’acov com o anjo) é buscar o “adoçamento” dos juízos severos, para que o mal se subjugado e incorporado na kedusha. “E o queimar do incenso também causa o Nome Havaya, de combinar com o Nome Elokim, que significa julgamento, para que assim ele seja adoçado. Esta combinação é aludida na palavra Yabók, guemátria 112, sendo a mesma dos valores do Nome Havaya [26] e Elokim [86]”. E vemos que Avraham se separou (הפרד hipared) de Lote de modo retificado, pois a guemátria atbash (289) deste termo é 199, a mesma de צדקה tsedaka (“retidão”). É preciso explicar que a guemátria de tsedaka (que é tanto o termo para retidão como para seu sentido mais conhecido de “contribuição”) mais o kolel (portanto, 199+1=200), tem o mesmo valor numérico da combinação dos Nomes Elokim, Adni, MaH (valor 45, que indica bitúl/auto-anulação), e 4 (para cada uma das quatro letras do Shem Havaya). Assim temos que a separação de Avraham adoçou os julgamentos severos: Tsedaka: tsadik-dálet-kuf-hêi = 90 + 4 + 100 + 5 = 199. Elokim: alef-lámed-hêi-yud-mém = 1 + 30 + 5 + 10 + 40 = 86. Adni: alef-dálet-nun-yud = 1 + 4 + 50 + 10 = 65. E assim: 86 + 65 + 45 + 4 = 200. Avraham representa a bondade e capacidade de “adoçar a realidade” (por isso mais tarde, Ketorah que é Hagar volta para ele). Lote é o mal que “sugava” da kedusha – afinal, “Lote andava com Avraham” (Bereshit 12:4). Com a separação, Avraham rompeu com este “sustento”, subjugando a sitra achra. Isso foi um adoçamento da realidade. Porém, como existiam aspectos positivos em Lote, afinal ele era um descendente de Shem, Avraham teve certa compaixão por ele, ao invés de enfrentá-lo (o que ocorreu em repetição arquétipa mais intensa no Yabók). Por fim, como um tikkún de Avraham e Lote, arquétipamente (para todos os “Lotes“), eu creio que devido aos seus “elementos positivos” (que fizeram com que os anjos que destruíram Sodom o salvassem [Bereshit 19:15], afinal Lote é guemátria 45, a mesma de Adam) em últma instância, subjugarão suas fraquezas, rebaixando esta klipah, se D-us quiser.

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O UNICÓRNIO

O Rambam traz que: “Um unicórnio [uma espécie de antílope dos tempos Talmúdicos, ver Chulin 59b] é considerado uma besta selvagem, apesar de ter somente um chifre [shofar]” (Hilchot Ma’achalot Assurót, Pérek 1, Halachá 12). Meus olhos se fixaram na expressão do Rambam, ve’ha-kéresh, “E um unicórnio…” (vav-hei-kuf-rêish-shin), de guemátria 611. Com mais o kolel da palavra, temos 612 que é guemátria de ברית brit/pacto. E veja: Falta um ‘chifre’ para ser um animal completo. De fato, kéresh é um tserúf/anagrama de shéker (“mentira”). De modo ainda mais essencial, a palavra kéresh tem guemátria 600, um número importante nesta semana, pois “Nôach tinha 600 anos de idade e o Mabúl/Dilúvio das águas veio sobre a terra” (Bereshit 7:6). E como é sabido, “O mundo não foi completado e estabelecido até que Avraham surgisse” (Zohar 117a, Bamidbar). Faltava um homem, um shofarAvraham – para completar o mundo. E na leitura de hoje, a parashá traz o késhet, “arco-íris” (kuf-shin-taf) que tem duas letras em comum com kéresh. E a forma do késhet era de um shofar. E isto é ligado aos toques do shofar, pois do reshêi tavót/acróstico de KéSHeT/arco-íris temos: teKiah, SHevarim, Teruah, os três toques do shofar. Quando Hashem escuta o shofar, Ele é lembrado do brit feito com Nôach (ver Zohar 215a, Pinchas).

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A ECOLOGIA ORIGINAL

Está escrito: “Rav Chana bar Bizna disse: Eliezar, o servo de Avraham, certa vez disse para Shem, o filho de Nôach: Está escrito, ‘pelas suas famílias, saíram da Arca’ implicando que cada espécie foi cuidada individualmente na Arca. Agora, e vocês? Como conseguiram cuidar da tarefa de prover a cada espécie com suas necessidades peculiares? Shem disse a Eliezar: Na Arca nós aguentamos muitas dificuldades. Qualquer criatura que por hábito era alimentada à noite, nós a alimentamos à noite. E com respeito à criatura chamada de zikita [Rashi: um pequeno pássaro como uma codorna], o Pai Nôach não sabia o que ela comia, portanto não pode alimentá-la. Assim, certo dia ele se sentava e cortava uma romã, quando um verme pulou da fruta e o zikita pulou e comeu o verme. Daí em diante, Nôach sempre amassava farelo de soja com água para o zikita, e quando a mistura dava vermes, o pássaro a comia” (Talmud, Sanhedrin 108b).

Isto ilustra o trabalho e cuidado extremo que Nôach tinha para garantir de prover precisamente a cada espécie suas necessidades específicas. Disso tudo pensei o seguinte: qual lição tiramos deste relato quando aplicamos o princípio de Ma’asei avot simon l’bonim, “as ações/experiências de nossos patriarcas são um sinal e prognóstico para todos os seus descendentes no futuro”? A lição é que Nôach e os seus ensinaram os princípios fundamentais da Ecologia, a saber, o estudo das relações que os organismos vivos têm uns com os outros e seu ambiente natural. A revelação Talmúdica sobre os vários cuidados de Nôach são parte e de fato engrandecem o escopo da mitsvá de אבר מן החי (êiver min hachái/não comer uma parte ou todo um animal vivo), mostrando que é preciso ir além do não maltratar um animal, e sim estabelecer uma relação de cuidado e respeito com cada um deles. Mais ainda, o relato Talmúdico pode ser entendido com uma metáfora da relação da Providência Divina com toda a humanidade. Nôach representa a humanidade e ele cuida com respeito e dignidade do meio ambiente e os seres vivos, do mesmo modo que a Providência Divina cuida da humanidade e de fato, de toda a criação. A lição então é que a mitsvá êiver min hachái estabelece a cerca menor da relação com as criaturas, querendo dizer, se você não cuidar do ambiente, protegendo-o bem como as suas criaturas, então saiba que no mínimo é terminantemente proibido maltratar um animal vivo, pois ninguém pode corromper a verdade da criação em todas as suas formas (sem ser punido). De onde segue que o descaso com o meio-ambiente (ba’al tashchit), todas as atitudes antiecológicas são igualmente corrupções da fundação do mundo. Prejudicar o meio ambiente é como manchar e retirar assim algo da essência e fundação dele enquanto “ele é vivo e ativo”, ou seja, diminuir a sua verdade. E como Elokim é guemátria de HaTeva, vemos que a natureza é uma “luva” para Hashem, mas é Ele igualmente. Portanto, corromper a natureza equivale à blasfêmia. Daí entendemos a ligação da fundação/Yessód/brit com a boca/blasfêmia. Pois de fato, a boca/língua e o órgão procriador são duas manifestações inter-relacionadas do pacto único da união entre D-us e o homem (ver Darósh Darásh pág. 194-195). O tikkún para ambos é a submissão à Providência Divina. Uma pessoa que cuida do seu brit/Yessód protege assim o recebimento das bênçãos de D-us que a sustenta e aos seus. E uma pessoa que entende isso e recebe com amor o sustento de Hashem não ousa a destruir ‘a verdade da natureza’ (blasfêmia) que traz sustento às criaturas que Hashem providencia. Uma pessoa que verdadeiramente acredita e vive sua fé na Providência Divina é “ecológica” por definição. Ela jamais se torna um ba’al tashchit em qualquer grau.

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