ROSH HASHANÁ 5775

É comum que as pessoas tenham “decepções” pessoais com vários conhecidos, especialmente no mês de Elul que antecede Rosh HaShaná. Esas decepções fazem parte dos limites dos homens e suas interações igualmente limitadas. Contudo, mesmo esta interpretação de eventos e sentimentos assim está equivocada. Veja, o mês de Elul é um mês de amor. O Talmud (Rosh HaShaná 17a, Ráshi in loco) ensina que uma das maneiras de melhorarmos nossas chances para um bom julgamento em Rosh HaShaná é se tornando um Ma’avír Ól Midossóv. Ou seja, a pessoa que tem a capacidade de ceder e não ser tão estrito com pessoas que não se comportaram ou fizeram as coisas do “seu” jeito particular. Deste modo, o Beit Din Shel Ma’ala (“Tribunal Celestial”) também não aplicará escrutínio sobre as suas averót/transgressões. Vemos então que todo este excedente de aparentes dores causadas por pessoas é a pura bondade de Hashem nos dando grandes chances antes do Yom HaDín (“Dia do Juízo”/Rosh HaShaná) para que adocemos nossos próprios julgamentos, perdoando estes erros comportamentais das pessoas que nos feriram. Tudo é midah kenégued midah/”medida por medida”.

K’siva v’Chasima Tova (“Que você seja inscrito para um bom ano”).

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ESPÍRITO GROSSEIRO

O Zohar nesta parashá diz: “Aprendemos que todo aquele que descende até אבדון Avadón, o local [no Guehinom/Inferno] chamado de ‘o fundo’, nunca mais sobe novamente. E este homem é chamado de ‘o homem que foi destruído e perdeu todos os mundos’. E aprendemos que para este lugar terrível são baixados aqueles homens que desprezam dizer Amém [após ouvirem uma brachá/bênção]. Enfim, tal homem é punido no Guehinom pelos tantos Améns que eles perdeu, os quais ele não considerou, e ele é então baixado para o compartimento mais inferior, que não tem abertura alguma. E ele é perdido para nunca mais se erguer de lá” (286a, Vayêlech). Saiba que estes ímpios são ligados somente באדון ba’Adón, um tseruf/permutação de Avadón, significando ‘com o senhor’, a saber, o Satán. Agora, eu calculei e vi que a guemátria de Avadón (alef-bet-dálet-vav-nun, ou 1+2+4+6+50 = 63) é igual a 63 (sámech-guimel, 60+3). Agora, é o gas ruach (“espírito grosseiro”) do indivíduo que faz ele desprezar Hashem e Sua Torá, portanto o fundamental ato de testemunho que é dizer Amém para uma brachá. E o Zohar é sobre isso tão contundente que podemos inferir que negar dizer Amém para uma brachá é a quintessência do espírito baixo de um orgulhoso. Daí sua punição ser tão severa. E veja: o (único) tseruf de sag é gas; e a guemátria albam de Avadón mais um do kolel é igual a 214, a mesma guemátria de ruach (rêish-vav-chet = 200 + 6 + 8 = 214). Avadón é sim o lugar dos que têm um gas ruach.

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TOCHACHÁ

A parashá Ki Tavô traz uma grande tochachá (“admoestação”) da Torá. Existe outra no livro de Vayicra, na parashá Bechucotai. Tochachá também significa “trazer prova”, senda ela um pré-requisito da teshuvá. Uma vez que seres humanos tendem a negar as suas falhas, a tochachá é como um “espelho”, provendo prova irrefutável do “Eu”. A linguagem desta tochachá é intensa, e as maldições afirmadas se iniciam comumente com a expressão ארור האיש Arúr HaIsh (“Almaldiçoado seja o homem…”). A temática então segue com várias maldições, contudo o tema geral é que se a pessoa não seguir o ordenamento Divino, então as coisas ficarão muito difíceis. Veja, a guemátria atbash de Arúr HaIsh (mais 2 do kolel de cada uma das palavras) é 1020. E este é o mesmo exato valor numérico de, “Eis que tombarão os que praticam o mal, cairão e não mais se poderão reerguer” (Tehilim 36:13).

Agora, tochachá também ocorre entre as pessoas, umas com as outras. No entanto, antes da pessoa assumir de dar uma tochachá em alguém, ela deveria refletir muito. Veja, como está escrito: Ach-basar benafsho damo lo tochelu, “A carne com sua alma estando com vida e seu sangue, não comereis” (Bereshit 9:4). E eu entendi que este passúk significa também que a pessoa, ao lidar com outra, não deve penetrar e interpretar demais as supostas intenções e explicações desta outra pessoa. Quando lidamos com alguém, em certo grau estamos ‘comendo’ algo de sua essência. Por isso a dificuldade natural – grande ou pequena, dependendo de vários assuntos – em lidar com outras pessoas. Se já não bastasse os obstáculos comuns no tratar com alguém de acordo com a halachá, o nível de ‘comer a carne’ – a parte mais revelada – o que é necessário para se tentar chegar a um ponto comum entre ambas as pessoas etc., agora ‘comer a alma’ que está na carne – o íntimo da essência da pessoa, a ‘sua alma’ – é uma tarefa psicológica a ser evitada, pois como está escrito imediatamente após no passúk: ‘E por certo o vosso sangue de vossas almas requererei’. Ou seja, esta sua força psicológica usada para adentrar a psique do próximo é examinada por YKVK, midah knégud mida (“medida por medida”). De outro modo, somente um indivíduo reto, com as intenções de ahavat israel pode e deve fazer este ‘esforço psicológico’ com real sucesso nesta grande mitsva de HoChaiach ToChiach (ou seja, a tochachá em geral, como explicado no Talmud, Yevamat 65b). Pois como é sabido, assim como é uma mitsvá adentrar a essência das coisas, é uma mitsvá não falar nada se a pessoa não mostra abertura para escutar as palavras mais profundas. E sem ser elevado, as chances de transgressão destas mitsvót são grandes. E tudo isso vale, apesar de não ser o caminho do mundo.

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DISPENSA MILITAR

“Quando um homem toma uma nova esposa, ele não entrará para o serviço militar [‘para guerrear’, como diz o Rashi]… ele se rejubilará com sua esposa” (Devarim 24:5, Ki Tetsê). Entenda bem, “Na imagem de D’us, Ele o criou, macho e fêmea Ele os criou” (Bereshit 1:27) para que o homem unisse o mundo de cima e o de baixo graças ao chibur/conexão íntimo com a sua esposa, seguindo a regra espiritual de leMinô (Bereshit 1:12) ou seja, cada uma espécie é atraída para o seu próprio tipo. Quando o homem faz isso, ele atua no princípio celestial de Yehi/Que Seja, “o qual indica a união entre Aba/chochmah e Ima/binah simbolizados pelas letras Yud e Hei” (Zohar 16b, Bereshit) do Nome de D’us. Deste princípio efusa outro, a saber, “D’us os abençoou. D’us lhes disse: ‘Sejam férteis e tornem-se muitos’… D’us viu tudo que Ele fez, e eis que era muito bom” (Bereshit 1:28-31). De certo, ao unir-se o homem a sua esposa, ele ‘faz o bem’ (assê tov), e assim ‘se afasta do mal’ (sur me’rá), que é a incompletude e a estagnação do seu ser: ele se afasta de ter que ‘entrar para o serviço militar para guerrear’ com o mal, pois a Shechinah/Presença Divina agora derrama bênçãos em sua casa. E “saberás que a tua tenda está em paz” (Iyóv 5:24), pois a paz, que é o recipiente para receber as bençãos contínuas, estará pronta para os frutos: os filhos dignos, o sustento e a saúde, e assim verdadeiramente ‘ele se rejubilará com sua esposa’, se D’us quiser.

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