MEDIDA POR MEDIDA

E está escrito: ויהיו חיי שרה מאה שנה ועשרים שנה ושבע שנים שני חיי שרה Vayihyu chayei Sarah mea shana veesrim shana vesheva shanim shenei chayei Sarah, “E a vida de Sarah foram 127 anos; estes foram os anos de vida de Sarah” (Bereshit 23:1, Chaiyê Sarah). O Talmud (Sanhedrin 95a) relata algo extraordinário sobre o rei David e seu sobrinho Avishái. Em certo momento, ambos estiveram envolvidos numa luta feroz contra o gigante Yishbi B’Nóv, irmão do infame Golias. E eu recebi que a morte deste gigante perverso que muito tentou abater David (assim como seu irmão Golias tinha feito no passado, em II Samuel 22), foi um tikún/retificação para a morte da matriarca Sarah. Veja, neste trecho do Talmud é relatado que David e Avishái perceberam que mesmo juntos, não teriam forças para abater este gigante do mal. Existem vários detalhes extraordinários desta passagem (incluindo o uso de Shemót Kodashím/Nomes Santos para alterar a realidade por David HaMélech/rei David), mas que aqui não os citarei. Enfim, eles tentaram uma nova tática para matar o malvado: Eles disseram a Yishbi B’Nóv: “Vá e encontre a sua mãe Orpah na cova, pois nós a matamos!”. Quando eles mencionaram o nome de sua mãe e disseram que a haviam abatido, a força do gigante se esvaiu por completo e aí então eles o mataram. Agora, o Midrash revela a conhecida passagem que o Satán visitou Sarah enquanto Avraham e Yitschak estavam no Monte Moriyah para o Akedat Yitschak/Sacrifício de Isaac. E ao ouvir a notícia pelo Satán que a mando de Hashem, Avraham ia sacrificar Yitzchak como um corbán/oferenda, “A sua alma voou e ela faleceu” (Ráshi no Bereshit 23:1; Pirkê de Rabi Eliezar etc.) . “Aparentemente”, o lado do mal prevaleceu aqui, que D-us nunca permita, pois o estresse causado na santa mãe do patriarca Yitschak a abateu. Mas, de certo o lado do bem prevaleceu, fazendo um tikún, pois o estresse causado no gigante pela notícia do falecimento de sua mãe permitiu que este grande agente do mal fosse agora aniquilado, midá kenégued midá/medida por medida. Mais ainda, os Sábios da Torá explicam que שני חיי שרה shenei chayei Sarah, “estes foram os anos de vida de Sarah” significa que “Todos eles foram igualmente bons” (Ráshi no Bereshit 23:1). Ela viveu plenamente, e quando seu tempo terminou nada faltava para ela completar a sua missão no mundo. Foi tudo perfeito, assim como vemos na dica da guemátria atbash de shenei chayei Sarah sendo 286. E este valor numérico é igual a guemátria do Tetragrama/YKVK (guemátria 26) vezes 11. E o valor numérico 11 é a guemátria da palavra טב tóv, “bom” (escrito sem o Vav). Portanto, como a multiplicação significa psicologicamente o “fortalecimento em estágios”, vemos então que a cada estágio da vida de Sarah, tudo foi bom (26 x 11 = 286). Do início ao fim, sua vida foi abençoada. Veja, o sofêi tevót/letras finais de חיי שרה chaiyê Sarah, “vida de Sarah” são as duas letras yud e hei, que formam o Nome Divino Kah/D-us. Verdadeiramente, tudo segue sempre de acordo com o Plano Divino.

tzedakah

A ABDUÇÃO DA MATRIARCA

E está escrito: וינגע ה’ את-פרעה נגעים גדלים ואת-ביתו על-דבר שרי אשת אברם Vayenaga Hashem et-Paro negaim guedolim ve-etbeitô al-devár Sarái êshet Avram, “E o Eterno infligiu ao Faraó e à sua casa grandes pragas por causa de Sarái, mulher de Abrão” (Bereshit 12:17, Lech Lechá). Como a Torá traz nesta parashá santa, devido a uma severa fome na terra, Avram (e não Avraham, que só começou a ser chamado assim mais tarde na parashá) e sua família precisaram viajar para o Egito, aonde havia abundância de recursos. O patriarca Avram era um homem sábio e reto, e que já havia tido contato com Hashem, elevando-o espiritualmente ainda mais. Sua percepção sobre a realidade era avançada, então de modo a prevenir possíveis problemas, ao entrarem no Egito pediu a sua esposa Sarái (e não Sarah, que só começou a ser chamada assim mais tarde na parashá) que afirmasse ser a sua irmã e não sua esposa. Avram sabia que os Egípcios eram idólatras e que não se guiavam por nenhum código moral que os impedisse de sequestrar Sarái se soubessem que ela era esposa de Avram. Agora, como irmã dele, talvez eles a deixassem em paz. No entanto, quando os Egípcios viram a beleza extraordinária de Sarái, ela acabou sendo levada à casa do Faraó. E ele a desejou. Contudo, ולאברם היטיב בעבורה Ule’Avram heitiv baavurá, “E ele tratou Avram bem por causa dela” (Bereshit 12:16), pois presumiu (uma vez que as mulheres era desvalorizadas em sua sociedade) que isso seria o suficiente para que o patriarca se apaziguasse e então julgasse o Faraó para o bem, ainda que sua esposa tivesse sido roubada. De fato, o Faraó ainda deu a Avram muito gado e servos, na esperança de subornar os sentimentos do santo homem. Mas, Avram sabia por inspiração divina quem era este mestre da sitra achra/lado do mal. Uma dica disso, a guemátria absoluta deste passúk/verso é 600, o mesmo valor numérico de שקר shéker, “mentira”. E a Torá relata que foi então que Hashem puniu o Faraó e toda a sua casa, por sequer “ousar” a pensar em tocá-la. E o Ráshi explica sobre על-דבר שרי al-devár Sarái, “por causa de Sarái etc.”, que “Através da palavra dela [vieram as punições]. Ela instruía o malach/anjo: הך hach, ‘Bata!’, e ele então [obedecia e] batia neles”. O Faraó era ligado às “forças da externalidade” (o “Mal”) que somente existem recebendo nutrição mínima “por de trás/posteriormente” (אחוריים ahorayim) da Santidade (como se jogando comida pelas costas com desprezo), assim como podemos ver quando ele inicia a fala com Avram: ויקרא פרעה Vayicrá Faro, “Chamou o Faraó…”, com guemátria atbash 633, a mesma de ahorayim. E continua a Torá revelando o espanto do Faraó que disse: מה-זאת עשית לי Ma-zót assita li, “O que foi que você fez comigo?” (Bereshit 12:18), com o reshei tevót/acróstico (מזעל)  que forma a expressão ע מזל ayin mazal, significando “o ‘Nada Divino’ [Hashem] é a raiz espiritual”. E o fim deste verso למה לא-הגדת לי כי אשתך הוא Lama lo-higadta li ki ishtecha hiv, “Porque você não me contou que ela era sua esposa”, tem o sofêi tevót/letras finais האתייךא com guemátria absoluta 927, a mesma de ממקור ישראל mi-mekór Israel, “da fonte de Israel”. Portanto, a perplexidade do Faraó ocultava que ele entendeu sobre Avram e Sarái que “Hashem é a raiz espiritual da fonte de Israel“. E apesar que Faraó estava atemorizado pelas pragas que o afligiu, ele não reconheceu a Hashem, o D-us de Avram. Rapidamente, ele mandou escoltá-los para fora do Egito como relata a Torá (no verso 20). Mas veja, o reshêi tevót do verso וינגע ה’ את-פרעה נגעים גדלים ואת-ביתו “E o Eterno infligiu ao Faraó e à sua casa grandes pragas” é ויאפנגוב, com guemátria albam 589. Esta é a guemátria absoluta (versão sofít) de ואבימלך ve’Avimélech, “E Abimélech“. Mais ainda, na sequência do verso, o reshêi tevót de על-דבר שרי al-devár Sarái é עדש, com guemátria atbash 109, a mesma também da guemátria absoluta de ואבימלך ve’Avimélech, “E Abimélech“! Em um nível oculto, a Torá nos alerta sobre um personagem que até então não havia surgido: Abimélech. Além disso, outra dica sobre o futuro aparece aqui: a guemátria absoluta de הך hach, “bata” é 505, sendo esta a mesma de שרה Sarah, mas não Sarái (שרי), como a matriarca ainda era chamada neste relato do Faraó, pois esta mudança ocorreria somente no futuro.

E tempos depois (ver parashá Vayeira), após a destruição de Sodoma e Gomorra (Bereshit 19:24-25), Avraham e Sarah viajaram novamente (para se distanciar finalmente de Lóte). Eles foram para Guerrár, na terra dos Filisteus. Contudo, antes de entrar nesta terra, Avraham pressentiu que precisava evitar que sua esposa Sarah fosse abordada por este povo. Os Filisteus (Heb. Pelishtim) eram conhecidos pela sua grande indulgência sensual e adoração de todo o panteão Cananeio. Agora, o nome פלשתים Pelishtim é derivado da raiz pêi-lamed-shin, significando “indulgência exagerada”. A sensualidade excessiva neste mundo faz a pessoa espiritualmente fechada/tampada, resistente à inspiração Divina e insensível à realidade interior da vida e suas experiências. Avraham sabia disso, pois Hashem estava com ele e o inspirava divinamente. E foi então que אבימלך מלך גרר Avimélech mélech Guerrár, “Abimélech rei de Guerrár” (Bereshit 20:2) mandou aprisionar Sarah. E a guemátria absoluta deste verso é 596, a mesma de איש-מרמה ish-mirmah, “homem mentiroso/enganador” (Tehilim 43:1), um segredo sobre sua natureza. Apesar que Avraham não pôde impedir novamente esta abdução, Hashem estava com ele e sua esposa Sarah. E Hashem apareceu em um sonho para Abimélech, dizendo que ele morreria por ter sequestrado Sarah. De fato, “Abimélech nunca se aproximou dela, pois era impedido por um anjo” (Ráshi no Bereshit 20:4). O rei de Guerrár então falou com Hashem, clamando sua retidão Noética, a qual o mantinha longe das transgressões. Mas, Hashem afirmou para ele que sem a ajuda Divina, ele sim teria pecado. Hashem então ordena a Abimélech que retorne Sarah, e chama Avraham de profeta, dizendo que ele rezará por Abimélech para que as pragas cessem. Ainda assim, perturbado com estas experiências, Abimélech tenta argumentar com sabedoria e razão a seu favor com Avraham, afirmando sua (suposta) retidão: ויקרא אבימלך Vayicrá Avimélech, “Chamou Abimélech…”, com guemátria albam 1200, o mesmo valor numérico de duas vezes שקר shéker, “mentira” (indicando suas mentiras). E continua a Torá revelando o espanto de Abimélech que diz: מה-עשית לנו Me-assíta lánu, “O que foi que você fez conosco?” (Bereshit 20:9), com reshêi tavót לעמ la’Am, “para o povo”, pois Abimélech muito se incomodou que Avraham suspeitou que seu povo teria roubado sua esposa, sendo algo proibido pelas Sete Leis Noéticas – um crime com pena capital. E Avraham então responde: כי אמרתי רק אין-יראת אלקים במקום הזה Ki amárti rak êin-yirát Hashem bamakóm hazé, “Porque eu pensei que verdadeiramente, o temor a Hashem não existe neste local” (verso 11). O reshêi tevót deste verso (כאראיאבה) tem guemátria avgad 365, revelando profeticamente o número de mitsvót/mandamentos proibitivos (“não farás”) dados a Israel no Sinai. Um local aonde o temor a Hashem realmente existe é aonde não se transgride nenhum destes mandamentos. Portanto, Avraham, um nome com guemátria absoluta 248 (assim como o número de mandamentos positivos, “farás”), representa a completude no serviço Divino que só um profeta tem, pois 365 + 248 = 613 mitsvót. A Torá traz a sabedoria e razão de Abimélech, mas Avraham não se dobra a isso, pois ele entendia que apesar destas sabedorias inferiores, Abimélech e seu povo não tinha temor a Hashem. De fato, o santo Zohar afirma que “Abimélech e seu povo adoravam a estrelas e constelações. Abimélech era um astrólogo” (140b, Toledot). Ele e seu povo não eram Noéticos verdadeiros, ainda que assim se afirmassem. E por isso, o verso conclui: והרגוני על-דבר אשתי vaharaguni al-devár ishtí, “eles me abateriam por causa de minha esposa”, com guemátria ordinal 172, o valor numérico de duas vezes o Nome אלקים Elokim, que é associado aos julgamentos severos. E todo aquele que se encontra em situação de perigo, seus méritos são examinados. E assim, Avraham temeu por sua vida naquele momento. Enfim, a moral é que aonde o temor de Hashem não existe, a sabedoria e conhecimento abstrato da lei não são suficientes para sobrepujar a má inclinação. E para um reto, todas estas realidades são reveladas, e ele sempre as influencia, mesmo quando mantém uma postura calma de paz e tranquilidade, pois ה’ ילחם לכם ואתם תחרשון Hashem yilachem lachem veatem tacharishun, “O Eterno lutará por vós, e vós fiqueis calados!” (Shemot 14:14), com gemátria ordinal (mais cinco do kolel de cada uma das palavras) igual a 243, o mesmo valor numérico de אברם Avram.

tzedakah