E ELE FOI UNGIDO

E está escrito: ויצא יעקב מבאר שבע וילך חרנה Vayetsê Ya’akov miber shava vayêlech charana, “E Jacob saíu de Beer-Sheba, e seguiu para Haran” (Bereshit 28:10, Vayetsê).

No final da parashá anterior (Toledot), o comentarista Ráshi explica que “Ya’acov se ocultou [do seu irmão, o perverso Essáv] para estudar por 14 anos na yeshivá/academia de Torá de Éber [o descendente reto de Shem, filho de Nôach] e só depois é que ele foi para Haran” (no Bereshit 28:9). Agora, a guemátria do reshêi tevót/acróstico do verso acima (Bereshit 28:10) é 370, um número muito importante que será agora explicado com a ajuda de D-us. De acordo com a Cabalá, existem 370 luzes de kedusha/santidade que são ditas como “brilhando” (para quem tem mérito) dos níveis de Kéter, um nível altíssimo de iluminação espiritual pura e santa. Este brilho, por assim dizer, implica na manifestação de tremenda boa vontade e misericórdia. Ainda de modo mais específico, estas 370 luzes são “estados” de chéssed/bondade que em última instância, descem até o grau de yessód (a força motivacional para agir). Isto significa que, misticamente, quando este “recebimento” chega ao grau emocional (chamado de Z’eir Anpin), as emoções sofrem uma “ignição” por esta boa vontade e misericórdia. Veja, o intelecto abstrato do homem é um fator de distinção humana, entretanto por si só, ou seja, sem as respostas emocionais adequadas, ele tem pouco valor. De modo semelhante, a pessoa pode ter todo o tipo de boas intenções e desejos que somente se tornam parte efetiva da realidade à partir da resposta emocional, o que por sua vez vem a servir como a motivação para a “descida final da luz”, que são as ações. No nosso mundo de Asiyah, as ações são o que mais conta. Portanto, podemos dizer que a jornada de Ya’acov foi extremamente abençoada por Hashem, que “despejou” (abençoou) estas 370 luzes misericordiosas nele. Ya’acov precisava ainda evoluir mais para poder cumprir o seu grandioso papel cósmico. E este crescimento veio em estágios fundamentais e sucessivos, os quais incluíram a sua saída da casa de seus pais e o seu afastamento do perverso irmão Essáv. Mais ainda, os seus 14 anos na yeshivá tiveram grande significado na sua evolução espiritual, pois lá ele pode se dedicar integralmente a Torá antes de receber os novos desafios que culminaram nos seus 12 filhos – a base da formação do povo santo que iria se formar mais tarde como Bnêi Israel/Povo Judeu na saída do cativeiro do Egito e o auge espiritual do recebimento da Torá. Deste modo, era vital que todas as lições que Ya’acov recebeu fossem realmente aprendidas de modo profundo e completo.

Agora, é preciso explicar mais sobre o processo de entendimento que um aluno – no caso o patriarca Ya’acov – precisa passar com o mestre, no caso Éber, para que com o tempo adequado estas lições e as subsequente evoluções ocorram verdadeiramente. Veja, “Como é sabido, a mentalidade de Ába entra a mentalidade de Ima e o yessód de Ába estende para baixo até o yessód de Íma” (o Arizal, Likutêi Torá, Vayishlach). Isto significa que, o insight de chochmah/intelecto intuitivo é o material “cru” – o conteúdo – que binah/intelecto racional processa. Ainda que este insight inicial seja a fagulha original de inspiração, o seu yessód, ou seja, a força de auto realização, é ainda mais poderosa e se estende para baixo até mais do que binah. Ou seja, o insight inicial, apesar de ser uma experiência intelectual, contém dentro de si um “elemento” de consciência que transcende o intelecto e assim não é limitado por ele. Continua o Ari”zal, “Agora, a mentalidade de Ába não entra completamente a mentalidade de Íma, até que a mentalidade imatura é expelida”. O objetivo central da infusão da mentalidade de Ába/chochmah em Íma/binah é que este poder mental se transforme no poder mental de Z’eir Anpin/emoções. Ou seja, o objetivo de qualquer insight intelectual é o revitalizar a visão do mundo da pessoa para verdadeiramente “recriá-la”. A medida disso é o tanto que a relação emocional/Z’eir Anpin com a realidade é de fato refeita. Entretanto, o desenvolvimento da mentalidade de Z’eir Anpin (o aspecto emocional e do caráter do indivíduo) progride através de três estágios: a mentalidade embrionária, a mentalidade infantil e a mentalidade madura. A progressão de um estágio para o outro depende do “desalojar” da velha mentalidade (ou reação emocional à realidade) por a nova mentalidade. Isto é fundamental. E toda a dificuldade de recebimento do aluno provém da “luta” espiritual que surge do yessód de Ába para transcender seu domínio e chegar em Z’eir Anpin, pois se o conteúdo intelectual atuar nas emoções, a pessoa muda. Mas se a sua força emocional (não retificada), o seu “Ego”, for maior do que a força intelectual que é despertada pelo insight (das explicações do mestre) ela então “resistirá” e não permitirá que aja a “descida da luz” de Ába/chochmah/insight até o seu centro emocional. Ela é refratária à iluminação, se mantendo então espiritualmente-mentalmente imatura. E toda imaturidade é uma severidade, querendo dizer, algo que conecta a pessoa ao Mal. Esta severidade ou “amargura” metaforicamente falando, precisa ser então “adoçada” (mitigada) através da sua evolução, ou seja, de uma nova mentalidade. Portanto, a saída do patriarca Ya’acov é abençoada com grandes “doçuras” espirituais para erguê-lo diante do seu papel tão fundamental na realidade. Deste modo, o despejar destas luzes altas significou que Ya’acov foi ungido por Hashem, e assim, suas “severidades” (ou seja, qualquer falta de entendimento), adoçadas/retificadas. E incrivelmente, o reshêi tevót (com guemátria 370) do passúk/verso deste estudo é exatamente וימשוח Vayimshach, que significa “E ele foi ungido”.

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tzedakah

 

3 pensamentos sobre “E ELE FOI UNGIDO

  1. Shalom Rabino Avraham,

    Graças a D-us o Sr, nos traz mais uma preciosa aula onde podemos refletir sobre vários aspectos da Criação.
    A revelação que o patriarca “se ocultou” e permaneceu em profundo estudo de Torá por quatorze anos antes de seguir sua vida em Haran, elevam os sentimentos de responsabilidades com o estudo das Leis e prática diligente dos ensinamentos transmitido pelo Sr, Mestre. Busco entender que todo homem (cada um em seu nível) deve buscar com toda força possível este tempo de estudo/preparação para entender os assuntos Divinos/espirituais que certamente será como um “divisor d’águas” na vida da pessoa e se D-us quiser, o atributo de bondade acionará “a força motivacional para agir” com pensamentos retificados em uma nova e promissora etapa da vida pessoa.

    Obrigado por tudo querido Mestre.
    Edson Bertoldo

  2. Shalom,aula maravilhosa..obrigada pela paciencia conosco Sr.Rabino,apesar de nao comentar todas aulas..sempre leio-as..e todos os dias escuto os audios das aulas mais antigas.Graças a D’us.

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