SOBRE E PARA QUEM NÃO SE PODE FALAR LASHÓN HARÁ

A proibição de falar lashón hará existe mesmo quando a pessoa é pressionada a falar.

 

Mussar (ética e moral):

Hashem disse: ‘Se você deseja escapar da punição do Guehinôm [Inferno], se distancie da lashón hará, e você merecerá ambos este mundo e o mundo vindouro'” (Midrash Tanchuma, Metsora).

Comentário do Rabino AvrahamTofteh, o conhecido “apelido” para o Guehinôm, já explica algo importante sobre este domínio espiritual: “MiTafteh significa ‘se abrir’ para a sua iêtser hará [‘má inclinação’]; e vocês [que permitem este ‘acesso’ dela] são aqueles que caem lá” (Rabi Yehuda Fatiyah, Minchat Yehudah, Yeshayah, siman lamed, pêi bet, pg. 123. Ver Ráshi no Talmud, Eruvin 19a). É preciso entender que ser pressionado a transgredir as proibições de lashón hará é algo que inclui a incrível “pressão interior” que a má inclinação exerce quando uma “oportunidade” se abre para que se transgride assim. É como se as palavras criassem vida, e subissem do fôlego dos pulmões, passando para a garganta, crescendo na boca e língua e chegando até os dentes da pessoa, como a lava quente que sobe de um vulcão. No entanto, saiba que é por isso que a língua é cercada dos dentes, para que estes sirvam como uma barreira para a lashón hará.

tzedakah

AJUDADO PELO ALTO

Certa vez, no dia 20 de Kislev 5772 (sexta-feira, 16 de Dezembro, 2011) um jovem judeu veio até minha casa para conversar sobre assuntos pessoais. Nesta conversa, eu explicava sobre o erro comum das pessoas sem Torá de acharem que somente na transgressão existe o prazer. Em sua honestidade, então me disse sobre um relacionamento não sancionado pela Torá, no qual ele muito se “perdeu”. E afirmou coisas sobre isso, até mesmo de ter feito músicas para esta pessoa etc., mas no final das contas confessou que ela “o fazia passar pelo inferno”. Ainda muito iniciante na Torá, este jovem precisava de sérios aconselhamentos. E eu disse a ele que soubesse que todos os assuntos do mundo estão sempre na parashá e comentários santos. A Torá é o “mapa” espiriutal da realidade, e lá tudo é encontrado: do passado, presente e futuro. Mas, para isso, certamente é preciso entender como os incontáveis temas da vida que surgem sempre em linguagens tão distintas, são conectados na parashá/porção semanal da Torá. E eu continuei explicando a ele que diferentes manifestações que procedem de uma mesma kavaná/intenção atingem olamot/dimensões/mundos diferentes, mas se mantêm conectados, como em um holograma multidimensional, por assim dizer, unindo tudo o que fazemos, sentimos e pensamos. Verdadeirmanete, quanto mais em uníssono nossos pensamentos, sentimentos e ações estão, mais forte é o nosso poder de alterar a realidade. A realidade é primeiro construída na mente, depois ela “desce” para os níveis inferiores (ou seja, mais materiais) do domínio das emoções e por fim, das ações. E se ele deseja retificar suas ações, ele precisa entender sobre a unicidade de Hashem, e se focar muito no devekut/união e ligação com Ele de modo direto e simples, compreendendo que tudo é Ele. E se realmente existe o desejo de alteração de comportamentos errados, de reavaliação da mentalidade para que o desejo de amadurecimento tenha frutos reais, então isto é totalmente possível e de fato, devido. Evoluir é uma obrigação espiritual da Torá. Veja, quando uma pessoa deseja se elevar, ela é ajudada por um ruach/espírito do Alto (assim como ensina o Talmud: Haba Litaher messayin oto, “Aquele que quer se purificar é ajudado pelo Alto”, Yoma 38b); contudo, o contrário também é verdadeiro: quando ela deseja se profanar, ela é “ajudada” por um ruach rah/espírito ruim para que possa cair e se poluir ainda mais, que D-us nunca permita. Enfim, após tudo isso, eu falei que iria com certeza achar algo relevante na parashá sobre o quê ele acabava de me revelar, a saber, da tal mulher que o fazia sofrer tanto etc. Como é sabido, nesta parashá Vayeshev, a Torá traz a história do Yossêf/José na casa do Potifar, que tinha uma esposa que muito tentou Yossêf a se profanar com ela através de uma relação ilícita que ela desejava, que D-us nunca permita. No entanto, ele resistiu totalmente e disso recebeu da Torá o título HaTsadik/O Justo, pois o órgão reprodutor é associado à sefirá de yessód que misticamente é o canal do tsadik/tsédek/tsedacá, todos termos ligados ao conceito de justo/justiça. E como ele não profanou o seu órgão, ele assim protegeu a sefirá de yessód o que então lhe conferiu (e a todos que assim agem) o atributo de tsadik/justo. E foi então que eu abri a Torá na sexta leitura da semana (ou seja, a leitura desta sexta-feira) aonde encontramos o passúk/verso: ויהי כדברה אל-יוסף יום יום ולא-שמע אליה לשכב אצלה להיות עמה Vayehi kedabrah el-Yossêf yom yom velo-shama eleyha lishkav etzlah lihyót imah, “E ela ficava falando com Yossêf dia após dia, mas ele não lhe dava ouvidos, para se deitar perto dela e estar com ela” (Bereshit 39:10, Vayeshev). E incrivelmente, a expressão להיות עמה lihyót imah, “estar com ela” tem guemátria albam 548, a mesma (com mais um para o kolel) de לתח גיחנם l’toach Guehinôm, “No meio do Inferno”. E graças a D-us, depois desta experiência comigo este jovem judeu iniciou um real processo de teshuvá/retorno a uma vida judaica legítima, e foi muito abençoado. Ele conheceu uma mulher digna e honrada, se casou, e hoje tem um lindo filho, tudo de acordo com as leis da Torá e a Providência Divina.

tzedakah

AMÉM!

E está escrito nesta parashá santa: וחרה אפי בו ביום-ההוא ועזבתים והסתרתי פני מהם והיה לאכל ומצאהו רעות רבות וצרות ואמר ביום ההוא הלא על כי-אין אלקי בקרבי מצאוני הרעות האלה “Então Meu furor crescerá contra ele naquele dia, e o abandonarei, e esconderei o Meu rosto dele, e será por presa, e o alcançarão muitos males e angústias, de sorte que dirá naquele dia: ‘Certamente, por meu D-us não estar no meio de mim, me alcançaram estes males.’ E Eu, certamente, esconderei o Meu rosto naquele dia por todo o mal que fizera, por se haver voltado para outros deuses” (Devarim 31:17-18, Vayêlech).

Agora, se voltar aos “outros deuses” é um código para qualquer desligamento de Hashem. Isto pode ocorrer na forma mais revelada de qualquer espécie de idolatria – uma perversão da consciência sobre D-us – ou do desdenhar das leis, ordenamentos e orientações d’Ele. Tudo conta, nada é deixado de ser contabilizado. Cada ato, emoções e pensamentos são anotados no Alto. Cada aspecto do ser é visto e julgado pelos seus méritos e deméritos. E a balança celestial é perfeita, pois Ele é o Juiz da Verdade. Mesmo um “simples” Amém* tem peso incalculável. Veja, “Aprendemos que todo aquele que descende até אבדון Avadón, o local [no Guehinom/Inferno] também chamado de תחתית Tachtit, ‘o fundo’, nunca mais sobe novamente. E este homem é chamado de ‘o homem que foi destruído e perdeu todos os mundos’. E aprendemos que para este lugar terrível são baixados aqueles homens que desprezam dizer Amém [quando ouvem uma brachá/bênção legítima da Torá]. Tal homem é punido no Guehinom pelos tantos Améns que eles perdeu, os quais ele não considerou, e ele é então baixado para o compartimento mais inferior, que não tem abertura alguma. E ele é perdido para nunca mais se erguer de lá” (Zohar 286a, Vayêlech). E eu vi que a guemátria de Avadón (alef-bet-dálet-vav-nun, ou 1 + 2 + 4 + 6 + 50) é igual a 63, sendo este valor numérico das letras sámech e guímel (60 + 3). Estas duas letras juntas formam a raiz da palavra “refugo” [SiGuim], como no verso, “Todos são refugo, completamente sujos” (Tehilim 53:4).

Agora, é o chamado gas ruach (“espírito grosseiro”) do indivíduo que faz ele desprezar Hashem e Sua Torá, portanto o fundamental ato de testemunho e santificar o Seu Nome que é dizer Amém para uma brachá. E o Zohar é tão contundente sobre isso, que podemos inferir que negar dizer Amém para uma brachá é a quintessência do espírito baixo de um orgulhoso. O orgulhoso se prostra aos outros deuses, principalmente ao o maior de todos: seu “deus interior”. Daí sua punição ser tão severa, como descrita neste verso atemorizante da Torá. E veja: o único tsêruf/anagrama de SaG é GaS; e a guemátria albam de Avadón mais o kolel é igual a 214, a mesma guemátria de ruach (rêish-vav-chet = 200 + 6 + 8 = 214) que significa espírito. Avadón é sim o lugar dos que têm um gas ruach. E para aqueles que ousam a descrer que estas punições venham a persegui-lo até mesmo depois da vida – o tempo de retribuições- a Torá revela que não é assim de forma alguma. Sendo uma mensagem Divina, cada letra e verso da Torá são infinitos portais de entendimento. Todas as verdades do universo são lá encontrados. O passúk/verso verso afirma sobre os que ignoram a Hashem, que ומצאהו רעות רבות וצרות umetsauhu raót rabót vetsarót, “e o alcançarão muitos males e angústias”, com guemátria albam 728: o mesmo valor numérico da expressão חיים אחר המות chayim achar hamót “vida depois da morte”. Mesmo depois da vida física existe vida, e o acerto de contas seguirá como prometido na Torá. E ainda quando tratamos de algo que parece ser tão “menor”, como um simples Amém, se este for desprezado, então “o alcançarão muitos males e angústias”, incrivelmente, com guemátria katán 91: o valor numérico da palavra Amém (alef-men-nun, 1 + 40 + 50 = 91); e a guemátria atbash de é 1309, a mesma de מהתחתנות mehaTachtonot, “do fundo”. É tempo de despertar!

* Amém é um acróstico de א-ל מלך נאמן KEl Mélech Ne’emán, “D-us é o Rei Fiel” (Talmud Shabat 119b).

tzedakah