UM ANJO AO SEU LADO

E está escrito, שלשה אנשים נצבים Shelosha anashim nitsavim, “Três homens estavam parados perto  dele (Bereshit 18:2). Estes são os três malachim/anjos que vieram visitar Avraham. Saiba que a a pessoa pode estar no nível próximo ao de um anjo e mesmo assim se misturar com outros que não percebem qualquer diferença entre ele e eles mesmos. De fato, uma pessoa mais espiritualmente elevada do que outra mais grosseira, comumente faz (e assim deve fazer) muitos esforços de shalom/paz para se comunicar com ela. Não é nada fácil fazer isso, porque quando este esforço é feito, a pessoa menos refinada nem ao menos percebo o amor que lhe está sendo estendido, achando que assim é mesmo como deveria ser ‘conversado’ o assunto em questão. No entanto, este esforço requer uma grande força – guedulah/grandeza que é o poder de chéssed/bondade – e uma ‘licença’ pedida no coração a Hashem pelo nível que é preciso descer para se comunicar com outro ser humano. E em minha de’ah/opinião isto representa o agir como um anjo, porque ainda que esteja vestido em “roupagens humanas”, tem a sua missão naquele momento. E toda missão é um avodah/serviço espiritual. Quando o anjo se aproxima da pessoa, é para servi-la de algum modo. Veja, a guemátria atbash (mais três do kolel de cada palavra) de Shelosha anashim nitsavim é igual a 942. Esta é a guemátira da palavra וישרתוך vishartucha “te servir” (Bamidbar 18:2. Note que o verso que tratamos aqui é o Bereshit 18:2). E a raiz da palavra vishartucha é שר sar/ministro angelical.

E talvez alguém ainda perguntasse, mas para que fazer este tipo de esforço tão difícil? E a minha resposta é que a pessoa (ou anjo?) assim emula a Hashem, tal como está escrito sobre o passuk/verso, “Sigam a D-us” (Devarim 13:5): “A Ele vocês se ligarão [tidbakun]. E como pode uma pessoa de fato seguir e aproximar-se da Divina Presença? Emule-O em Suas qualidades” (Talmud, Sotah 14a). Quando a pessoa desce de seu nível para lidar com outra que assim precisa, ela emula o atributo de humildade de Hashem, pois Ele também “desce”, por assim dizer, permitindo que a Sua Glória seja oculta na criação para que todos os seres possam então viver as suas vidas como assim aprenderem ser melhor. E tudo segue de acordo com a providência Divina.

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PAI E FILHO

E está escrito: Vayomer Avraham, “E disse Avraham” (Bereshit 22:8, Vayerá). Vayomer é guemátria 258 (257 + 1 do kolel), a mesma de Vaavadô leolám ועבדו לעלם, “e ele servirá Ele para sempre” (Shemot 21:6), a essência de ser devoto, verdadeiramente, um ôved Hashem, “servo de D-us”. E Avraham é guemátria 249 (248 + 1 do kolel), a mesma de arachem (“eu mostrarei misericórdia”). Sobre o sacrifício que deveria ocorrer, Yitzchak acabava de perguntar a seu pai: “Eis o fogo e a lenha, e onde está o cordeiro para a oferta de elevação?” (verso 7). Imediatamente, antes dele se pronunciar a Yitzchak, a Torá nos ensina algo sobre sua mente: Vayomer Avraham é a voz de YKVK que afirmou para ele: “Seja devoto! Eu mostrarei misericórdia”. Avraham não mentia, chaz v’shalom. Como pôde afirmar categoricamente para o seu filho, quem estava prestes literalmente a ser sacrificado, que YKVK ainda proveria uma oferenda em seu lugar? Avraham estava sendo guiado diretamente por YKVK. E ele escutou a voz Divina, pois era um profeta – fosse à voz de seu maguid/anjo guia, um malach/anjo do Criador. Não importa. Se porventura hesitou em algum único instante, agora não tinha mais dúvida alguma que o seu filho amado seria salvo. E Avraham só precisava ir em frente para revelar e confirmar seu yirat Hashem/temor a D-us neste ato reto. E assim disse: Elokim yire lo hasse leolah beni. Vayelchu sheneihem yachdav, “D-us proverá para Si o cordeiro para a oferta de elevação, meu filho. E andaram ambos juntos” (verso 8). E sobre este “andar junto” (uma expressão que a Torá usa duas vezes aqui, no verso 6 e no 8), explica o Rashi: “Avraham, tinha consciência que iria sacrificar o seu filho, mas estava indo [para o sacrifício] com a mesma vontade e alegria de Yitzchak que não era consciente do assunto” – eles estavam com o mesmo “estado de espírito”, de união e equilíbrio. Assim, foram ao local da oferenda, Avraham constrói o altar, arranja a madeira, prepara seu filho, pega a faca e quando estende sua para sacrifica-lo, o anjo de YKVK o impede e afirma: Ki yireh Elokim atah, “Eu sei que você teme a D-us”. O Zohar em Vayerá explica que agora Avraham estava perfeito, com ambas as midót/atributos de caráter de chéssed/bondade e guevurah/rigor, o yirat Hashem. E o mesmo para Yitzchak, pois sua guevurah foi “adoçada”, o elemento de chéssed uma vez que foi submisso ao sacrifício. Eu acredito que o passuk הנה האש והעצים ואיה השה לעלה Hine ha-esh ve’haetsim veaye hase leola, “Eis o fogo e a lenha, e onde está o cordeiro para a oferta de elevação?” (Bereshit 22:7) etc. contenha inúmeros segredos. De fato, a guemátria desta expressão toda (mais os 6 kolelim para cada palavra) é igual a 1060 – a mesma de תסתר taster, “oculte” como em “Não ocultes de mim Tua face” (Tehilim 27:9). E o nome da malka/rainha Éster vem de ocultação/héster, pois como é sabido, o Shem Havaya/Nome de D-us não aparece reveladamente na Meguilat/Carta de Éster. E talvez temos aqui um rêmez/dica que o cordeiro estava oculto e Yitzchak já sabia disso. Então porque a pergunta? Em outro nível, talvez foi uma forma de hastarat panim/ocultação da face Divina mesmo para um tsadik gigante como Yitzchak avinu, apenas de modo temporário. Aliás o Shem Kodesh/Nome Santo que Avraham usa em seguida é Elokim, implicando em um grau de ocultação de YKVK. Ou seja, Avraham que é a midat chéssed teve a revelação da voz Divina sobre o akedat Yitzchak (e que YKVK seria misericordioso) para que ele se erguesse com o ato de severidade com seu filho e assim se retificasse por completo: Ki yireh Elokim atah.

Agora, para Yitzchak que é a midat guevurah/atributo da severidade, foi o contrário. Sua percepção santa e apurada precisou ser ocultada para que deste modo ele não visse com seu ruach hakodesh o korban/oferenda que seria substituído por ele, e assim se subjugasse completamente neste momento para se completar através da midat chéssed/atributo da bondade. E pelo outro lado, Yitzchak avinu se submeteu com alegria e crendo que tudo era de acordo com o ratsón/desejo Divino. Ele era um mekabel yissurin/um “recipiente” perfeito para aceitar os julgamentos divinos. E só uma pessoa que recebe um yissur/juízo divino e acha que é injusto e não se submete com alegria “cria”, por assim dizer, a ocultação da face Divina. Existem tantas perguntas sobre este momento sublime. Vi também que Avraham deu uma tochachá/admoestação em Yitzchak pela pergunta que ele fez, porque ele se quer devia tê-la feita. Algo como se Avraham tivesse dito a ele: “Esta pergunta é errada, pois significa que você está usando conhecimento e expectativas do passado sobre como as coisas deveriam ocorrer. Aqui estamos diante de um momento completamente novo, de uma mitsvá. Olhe somente para frente. Quem sabe mais revelações virão destes mistérios, com a ajuda do Céu.

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A DURA EXTRAÇÃO PURA

E está escrito: אמת מארץ תצמח Emet meieretz tizmach, “Da terra sairá a verdade” (Tehilim 85:12). O reshit tavót aqui também é emet/verdade. E a terra também é chamada de adamah, aludindo assim ao corpo, o homem/adam. Veja, no processo de revelação existem mais revelações, assim como escrito: “Tão logo Adam foi criado, tudo na terra foi revelado, ou seja, a terra começou a mostrar os seus poderes e produtos que estavam nela implantados” (Zohar 97a, Vayerá). E este é o grau verdadeiro de birúr (“purificação/extração”). A prova está no tserúf/anagrama do sofei tavót אמת מארץ תצמח (tsadi-chet-tav), que soletra a palavra tzchat (“puro/claro”). Purificação requer esforços tremendos e não o caminho do que é mais confortável/fácil, pois as dificuldades da extração da verdade provém da mentira – a própria dor que a encapsula, prevenindo sua revelação.

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