O TEMER DAS MONTANHAS

    Recentemente escrevi sobre o passúk/verso da Arca de Nôah pousando nos montes Ararat, e o novo presidente do Brasil. É preciso investigar mais profundamente o que foi revelado no sentido de entender melhor o significado do contexto de “arca” e “montanhas”, e as lições em vários níveis daí depreendidas.

O verso que descreve as dimensões da Arca, וזה אשר תעשה אתה שלש מאות אמה ארך התבה חמשים אמה רחבה ושלשים אמה קומתה “E assim a farás: 300 cúbitos será o comprimento da arca, 50 cúbitos de largura e 30 cúbitos de altura” (Bereshit 6:15) oculta coisas importantes. A guemátria katán deste verso inteiro é 205, este sendo o mesmo valor numérico da palavra הר Har, “montanha”. Isto é uma alusão direta ao verso citado anteriormente, ותנח התבה בחדש השביעי בשבעה-עשר יום לחדש על הרי אררט והמים היו הלוך וחסור עד החדש העשירי בעשירי באחד לחדש נראו ראשי ההרים “E pousou a Tevah/Arca no 7º mês, aos 17 dias do mês, sobre os montanhas/harêi de Ararat. E as águas foram recuando e minguando até o 10º mês; no 10º, ao 1º do mês, apareceram os cumes dos montes” (Bereshit 8:4-5). Ainda que a palavra usada no verso, הרי Harêi, esteja no plural, a ideia é a mesma, como será explicado com a ajuda do Céu.

Veja, o assunto da arca pousar nas montanhas de Ararat pode ser entendido como metaforicamente correspondendo ao amadurecimento espiritual do homem. Este ensejo é revelado através da guemátria atbash de אררט Ararat que é 248, sendo este o mesmo valor numérico de בצלם אלקים b’tselem Elokim, “à imagem de D-us” (Bereshit 1:27; 9:6). O homem sendo criado à b’tselem Elokim reflete ambos no seu corpo e alma a estrutura das emanações Divinas (sefirot). Mais ainda, a sua criação implica na alma intelectual investida nas emoções e por fim no corpo material. E eis o homem: o ser completo físico-espiritual que amadurece espiritualmente pelo desenvolvimento e evolução das suas midót/caráter. Agora[1], as ‘montanhas’ podem ser vistas como protuberâncias da terra, a saber, a expressão dos seus “desejos” ou “tendências” para sair e alcançar além de si mesma, por assim dizer. Analogamente, os atributos do caráter mais orientados para a realidade externa são as “protuberâncias” do conjunto sefirótico que os formam. Uma vez que a intensidade de consciência é maior em certos atributos – como os que nos aproximam das coisas/chéssed ou nos afastam/guevurá delas – do que em outros (nêtsach e hód), os anteriores são chamados de “montanhas” relativos ao posterior, os quais são chamados de “montes”. Alegoricamente, o homem é uma “montanha”, ainda que esta configuração inclua várias montanhas e montes distintos, tal como seus desejos e tendências.

Agora, os pecados contínuos e intensos causam as bênçãos Divinas de diminuírem e as amarguras do mundo aumentarem. E a Dór HaMabúl/Geração do Dilúvio foi muito pecadora, o que removeu os fluxos de benevolência Divina sobre ela. Veja, o Nome Divino associado aos juízos severos é אלקים Elokim, e a regressão deste Nome (mais 5 pelo valor das cinco letras do Nome) tem também o valor numérico 205.

E assim:

A palavra “montanha” é har (hei-rêish): 5 + 200 = 205.

A regressão do Nome Elokim (alef-lámed-hêi-yud-mém) é: alef, alef-lámed, alef-lámed-hêi, alef-lámed-hêi-yud, alef-lámed-hêi-yud-mém.

O valor numérico para esta regressão é: 200 + 5 (para as cinco letras do Nome Elokim) = 205.

 

Desde modo vemos que o estado espiritual daquela geração pecadora é aludido pelas “montanhas” de chéssed e guevurá (as tendências/vontades mais evidentes/conscientes), então “submergidas” nas águas do mabúl/dilúvio, aludindo também à regressão do Nome Elokim, o Nome Santo associado ao julgamento rigoroso. E a regressão deste Nome significa uma situação especialmente negativa na qual a beneficência Divina é severamente limitada. Sendo assim, a consciência Divina implícita nesta situação precária não é mais suficiente para “civilizar” a realidade, portanto ela é deixada “fora de seu domínio”, querendo dizer, afundada nas águas isentas dela. O mundo se tornou então um “deserto” (marítimo) sem vida. Contudo, Hashem desejou que Nôah preservasse as “sementes” da consciência Divina para que em tempo elas pudessem ser replantadas em um novo mundo. E o pousar da arca em אררט Ararat representa um estágio fundamental da reintegração desta consciência na humanidade. Veja, a guemátria achas-beta de Ararat é 90, sendo esta a mesma guemátria da letra tsadik (צ), que significa o “justo”. Mais ainda, como é sabido na Torá, o número 50 é associado à “Compreensão”: חמשים שערי בינה Chamishim Sha’arei Binah “Cinquenta portais de entendimento”[2]. E a guemátria ordinal de Ararat é 50, indicando a santidade deste local. Portanto, a Arca trazendo Nôah o justo e pousando assim em Ararat representa o estágio final do recebimento e integração da consciência Divina nele. Este conhecimento superior inculcado em Nôah o capacitou então para a sua grande função de promulgar a consciência Divina na realidade do novo mundo. Portanto, este estágio significou um pacto de Hashem com Nôah, haja visto também que a guemátria avgad de אררט é 612, sendo esta a mesma guemátria de ברית brit, “pacto”. É preciso entender melhor a natureza deste pacto, com a ajuda de D-us.

O Sêfer Yetsirá[3] explica que existem dois pactos: o da língua e o do órgão sexual. Ambos estes órgãos são instrumentos através dos quais a pessoa se articula para o mundo exterior. Eles são muito poderosos, pois ambas a energia sexual e a palavra falada possuem o poder de construir ou destruir. A fala sem limites e cuidado, assim como a sexualidade sem limites e cuidado, pode trazer o caos na vida do indivíduo e naqueles que ele encontrar. De outro modo, a fala apropriadamente canalizada bem como a sexualidade apropriada, elevam o indivíduo para níveis altos de consciência espiritual, inspirando aqueles com os quais ele tem contato. Portanto, enquanto yêssód é geralmente associado ao órgão sexual – pela mesma razão – é também associado ao órgão da fala, a língua. A fala inapropriada ou maldosa mancha a sefirá de yêssód da mesma maneira que a sexualidade não sancionada o faz. No caso da terrível geração de Nôah, tanto a fala como a sexualidade foram completamente desrespeitadas, manchando e por fim, “cortando/bloqueando” o canal de bênçãos para o mundo que é yêssód. Agora, em um grau mais profundo, o “yêssód do intelecto” (yêssód de Ima) significa a força do intelecto para a expressão/articulação na realidade. Ou seja, esta força mental “desce” para os graus emocionais (chéssed e guevurá), pois o sistema emocional é o ponto psicologicamente mais “baixo” que o intelecto (através da força de yêssód de Ima) se manifesta. Isto quer dizer, que o resquício intelectual chega como uma força mental atuante nas emoções, pois ainda neste domínio ele “sustenta” a memória da ideia inicial que deu origem às emoções. Os estágios psicológicos subsequentes também precisam desta “inspiração” original do intelecto, mas agora em um domínio mais diretamente ligado às expressões reveladas, a força intelectual se torna “subordinada” a fim de que se possa concluir a ideia no mundo de modo prático – através das ações. Como explicado, as emoções/midót representam o caráter. Na geração do dilúvio, devido à falta de retificação do caráter, a força de yêssód de Ima/consciência Divina não pode “descer” e ser “absorvida” devidamente no caráter tão falho daqueles indivíduos, causando com que esta consciência precisa retornar à sua origem/Ima para ser retificada. Portanto, como explica o Ari”zal, o mabúl foi a imersão do mundo no intelecto (Divino) original que o criou em primeiro lugar, para que a realidade pudesse assim ser renovada. Verdadeiramente, o dilúvio foi um processo de purificação tal como o retorno de uma construção intelectual (ideia) original que recria o sistema emocional é uma experiência purificadora. Entretanto, tal dilúvio de forças renovadoras pode ser destruidor também, ou seja, destruindo o sistema emocional imperfeito, corrupto e degenerado do mundo que surgiu desta ideia, mas que se desenvolveu em caminhos egoístas. Por isso também, é tão difícil para as pessoas serem “espelhadas” e aceitarem de rever as suas posições. Ainda que o mapear das posições existenciais até à sua origem traz a promessa de renovação, purificação e rejuvenescimento, existe um preço: a destruição potencial do “mundo” interior da pessoa (ou civilização) que foi cuidadosamente até então construído para assim servir aos interesses de cada um.

Continuando, a Arca é intrinsecamente associada à “língua/fala”, no sentido da importância do “cuidar da fala” (שמירת הלשון shemirat ha-lashón[4]), evitando manchar este pacto. A habilidade de “guardar a língua” é uma cerca importante para proteger o indivíduo de ser arrastado pelo dilúvio de águas que buscam destruir a humanidade. E automaticamente, aquele que guarda a fala também guarda a sua sexualidade. E como yêssód é associado à fala, seu cuidar/retificar possibilita com que a força mental (yêssód de Ima) desça até o grau emocional e as subsequentes ações, mas que deste modo retificado se expressam com retidão no mundo. E agora podemos entender o pacto de Hashem com Nôah sendo intrinsecamente marcado na própria descrição da Arca, pois como está escrito: ‘E assim a farás: 300 cúbitos será o comprimento da arca, 50 cúbitos de largura e 30 cúbitos de altura’. E estas dimensões ilustram diretamente a fala retificada, pois a guemátria da letra shin (ש) é 300; a guemátria da letra nun (ן) é 50; e a guemátria da letra lámed (ל) é 30. E estas três letras formam a palavra לשן lashón, “língua/fala”. Vemos também que Ararat prenuncia desenvolvimentos fundamentais no reestabelecimento da kedusha/santidade no mundo, uma vez que através de Nôah virá o grande justo, o patriarca אברהם Avraham, sendo que a guemátria albam de אררט é 248, a mesma de Avraham e as “duas montanhas” de Ararat (aludindo à chéssed e guevurá) significam a guemátria de אררט (205) vezes dois (410), o valor numérico de משכן Mishkan, “Tabernáculo” aonde a Shechina/Presença Divina. Vemos que no desenvolver do novo mundo, a Shechina é prometida de voltar ao mundo e se estabelecer. Existem outras considerações, para outra oportunidade se D-us quiser.

Por fim, em referência ao nome do atual presidente Michel Temer ter sido encontrado no verso da parashá Nôah que fala exatamente do pousar da Arca nas montanhas de Ararat, o que se aprende destas lições aqui trazidas é que ele precisa ser muito zeloso com a sua fala: evitando desvios, hesitações e dissimulações, pois disso dependerá muito o seu sucesso. As hesitações que ele tem mostrado, e que o fazem retroceder, são muito negativas, porque representam dilúvios internos como demonstrado aqui. Ou seja, a luz intelectual não está sendo apropriadamente internalizada no âmbito emocional, deste modo “voltando” para o grau do intelecto como explicado. Este ciclo é causado pela ausência de retificação emocional. Mas, para que ações retas sigam e possam ser um instrumento vital de reparo dos imensos danos da consciência brasileira e tudo que disso depende, é imperativo que ele seja firme, focado, e venha a temer a D-us e nada mais. Pois o temor a D-us é uma cerca para a sabedoria – a essência do que foi aniquilado no mabúl do Brasil.

 

Rabino Avraham Chachamovits

Pêssach Shêni 5776

 

Leia também:

NÃO HÁ NADA A TEMER PRESIDENTE, SÓ A D-US!

SEGREDOS PRESIDENCIAIS

tzedakah

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[1] Baseado no Ari”zal, Likutêi Torá, Nôah.

[2] Talmud, Rosh Hashanah 21b. A guemátria atbash desta expressão é 613, aludindo as 613 mitsvót.

[3] Capítulo 6.

[4] A guemátria ne’elam desta expressão mais as suas dez letras é igual a 613, aludindo as 613 mitsvót.

 

NÃO HÁ NADA A TEMER PRESIDENTE, SÓ A D-US!

    A Torá relata que na época de Nôah/Noé Hashem determinou que o mundo não era mais merecedor de existir e seria então destruído. Entretanto, um homem – Nôah – seria salvo, junto com sua família. Apesar que Nôah foi considerado um “justo”, isso foi assim apenas em comparação a toda uma geração tão corrupta. Agora, o verso final da parashá Bereshit diz: Nôah Mássa Hen [חן] Be’eneh Hashem, “Nôah achou ‘graça’ aos olhos do Eterno” (Bereshit 6:8). Normalmente, quando um decreto é lançado contra toda uma sociedade, ele se aplica inclusive à minoria de justos que existem nela. No entanto, Hashem determinou a exceção, pois Nôah tinha a qualidade de חן, “graça” através da qual ele ganhou favor diante do julgamento Divino. Como uma pessoa alcança esta qualidade de Hen? Como se encontra ‘graça’ perante a Hashem, uma qualidade que traz favor divino, protegendo contra decretos severos? Uma resposta é La’anavim Yiten Hen, “Ele dá graça ao humilde” (Provérbios 3:34). A pessoa pode conseguir a graça Divina através da humildade, se conduzindo na vida modestamente sem se exibir, ou sem se vangloriar buscando atenção para si mesmo. Sabemos que isto é verdade quando se busca graça e favor de outros. As pessoas são naturalmente atraídas a mostrar bondade e favor para aqueles que são humildes e não estão buscando somente se promover, enquanto naturalmente rejeitamos os indivíduos que se exibem. E assim como é em baixo, também é no alto. Continuando, em tempo, o dramático Mabúl, “Dilúvio” na geração de Nôah veio pelo severo Julgamento Divino sobre aquela geração tão corrupta. A sua função foi de limpeza espiritual para que fosse possível então começar o mundo novamente. Agora, a Torá descreve períodos distintos do dilúvio. O primeiro período foi o dilúvio propriamente dito. O segundo período ocorreu quando as águas se fortificaram. E no período final, as águas diminuíram e a terra secou. Durante este último período, quando as águas decresceram, a Torá menciona dois eventos críticos: Primeiro, o tempo quando a Tevah/Arca veio finalmente a parar nas montanhas de Ararat. E segundo, quando finalmente a ‘terra seca’ foi avistada. Em graus diferentes, estes eventos representam momentos de alívio, sobrevivência e esperança para que o mundo então pudesse voltar ao estado de normalidade.

Tudo está na Torá, pois suas letras compreendem um grande Nome de D-us. O cenário descrito é também um grande arquétipo de fases e eventos que afetaram, afetam e afetarão as nações do mundo, tudo em maior ou menor escala. Portanto, podemos usar a “moldura” arquétipa descrita para os recentes fatos históricos que tem perturbado o Brasil. O dilúvio social e econômico resultante da corrupção moral e seus ecos em todos os aspectos da sociedade brasileira. E agora, o início do “aquietar das águas”, ainda que tênue, aludindo à recente transição de governantes, e a esperança para um futuro em “terra seca”, aonde se poderá reerguer um mundo novo brasileiro. Cada dimensão revelada pelos cálculos numéricos e interpretações representam diferentes níveis de influência Divina. Quanto mais se explora, mais se encontra com a ajuda do Céu.

E veja, assim como está escrito: ויזכר אלקים את נח ואת כל החיה ואת כל הבהמה אשר אתו בתבה ויעבר אלקים רוח על הארץ וישכו המים “E D-us se lembrou de Nôah e de todo animal selvagem e de todo animal que havia com ele na arca, e D-us fez passar um vento sobre a terra e aquietaram-se as águas” (Bereshit 8:1). E a guemátria de על-הארץ וישכו המים é 833.

E também está escrito: ויסכרו מעינת תהום וארבת השמים ויכלא הגשם מן-השמים “E fecharam-se as fontes do abismo e as janelas dos céus, e deteve-se a chuva dos céus” (Bereshit 8:2), igualmente com guemátria 833. E a guemátria atbash de בראזיל “Brasil”[1] é 833. O contexto de diminuição das águas após o dilúvio é fundamental nesta exploração. Entretanto, a revelação mais impressionante está nos versos 4 e 5 deste capítulo da parashá Nôah. E como está escrito:

ותנח התבה בחדש השביעי בשבעה-עשר יום לחדש על הרי אררט והמים היו הלוך וחסור עד החדש העשירי בעשירי באחד לחדש נראו ראשי ההרים

“E pousou a Tevah/Arca no 7º mês, aos 17 dias do mês, sobre as montanhas de Ararat. E as águas foram recuando e minguando até o 10º mês; no 10º, ao 1º do mês, apareceram os cumes dos montes” (Bereshit 8:4-5).

O sofêi tevót (“letras finais”) acima revela as letras:

רםשליטם

Agora, substituímos a letra ם mém que aparece aqui na forma usada estritamente no final de uma palavra em Hebraico, pela sua forma normal que é מ, e temos então a sequência:

רמשליטמ

E fazemos a permutação (tsêruf) das letras até que se forme a seguinte sequência:

מישלטמר

Por fim, dividimos este grupo de sofêi tevót em dois, formando assim a sequência:

מישל טמר

Incrivelmente, a Torá mostra uma personalidade associada ao momento arquetípico em que a ‘Arca pousa’, aludindo ao início da nova fase de ‘alívio, sobrevivência e esperança’ para o Brasil. As duas palavras reveladas formam o nome…

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E a guemátria albam[2] de מישל טמר é 524, sendo esta a mesma da guemátria milúi[3] de חן, “graça”.

Iyar 5776 / Maio 2016

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[1] Em atbash, שגתעמכ. O valor 833 também é a guemátria do verso ויחל נח איש האדמה ויטע כרם “E começou Nôah a ser um mestre da terra, e plantou uma vinha” (Bereshit 9:20, ver Rashi para crítica a Nôah aqui). A guemátria albam do reshêi tevót deste verso (ונאהוכ) é 663, sendo este o mesmo valor numérico do achas-beta de מישל טמר.

[2] De acordo com o Ari”zal, e por razões místicas que transcendem o escopo deste texto, a guemátria albam é altamente significativa.

[3] O milúi é o soletrar das letras que formam uma palavra em Hebraico. O milúi de חן é חית נון. As notícias destacam: “Michel Temer é conhecido pela discrição“.

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