E está escrito: ראשית דגנך תירשך ויצהרך וראשית גז צאנך תתן-לו Reshit degancha tiróshcha veyitsharecha vereshit guez tsoncha titen-lô, “As primícias de teu grão, de teu mosto e de teu azeite, e a primícia da tosquia de tuas ovelhas, darás a Ele” (Devarim 18:4, parashá Shofetim). Agora, existe um aspecto quântico sobre o desenvolvimento (binah) de uma ideia (chochmah), que será explicado com a ajuda do Céu. Veja, cada desenvolvimento de uma ideia altera os insights (ou seja, os “grãos”) originais desta, mesmo se existindo um forte desejo e foco para tentar preservar estas iluminações primárias e tão puras. Isto é assim, pois algum desvio sempre ocorre uma vez que binah é a origem dos julgamentos (guevurah). Ou seja, esta força intelectual-racional de binah separa/julga “entre” (bêin em Hebraico, e a raiz da palavra binah) uma ideia e outra, alterando assim a luz inicial de chochmah. É por esta razão que o resultado de algum entendimento de Torá é sempre diferente da visão intuitiva (chochmah) sobre estas luzes antes de sua descida para serem “julgadas”, ou seja, desenvolvidas racionalmente pela mente.
Agora, a física quântica, através do princípio de incerteza de Heisenberg, afirma que não podemos determinar com precisão simultânea a posição e o momento de uma partícula, deste modo, quanto mais precisamente se mede uma grandeza, forçosamente mais será imprecisa a medida da grandeza correspondente. Em outro nível, ao tentar trazer as iluminações de chochmah (insight/intuição) para “baixo” (ou seja, para o intelecto racional/binah), elas mesmas são afetadas e alteradas, portanto não é possível ter a ideia no nível de chochmah e binah simultaneamente, sem que haja algum desvio como explicado. Quando estas luzes elevadas chegam em binah, por assim dizer, elas lá fazem “sentido” mesmo diante da impossibilidade de capturar totalmente os insights de chochmah. De fato, elas geram inclusive emoções que surgem decorrentes do perceber nas diferenças entre os níveis mentais de chochmah e binah. Isto é assim, pois neste nível de expressão, a raiz intelectual destas emoções ainda é consciente em algum grau e nível. Ou seja, estas primeiras emoções que surgem a partir de uma ideia compreendida, tem raiz direta, portanto, perceptível ainda na própria ideia – como se a emoção fosse “consciente” de sua origem no intelecto. Quando buscando interpretar o entendimento de Torá, o indivíduo faz uso destas emoções para assim tentar “capturar” aspectos mais puros de chochmah que possam estar sendo modificados no grau de binah/racional. Desta maneira, a pessoa se “recusa” a aceitar imediatamente o seu próprio processo racional, buscando níveis mais altos e intuitivos. Contudo, esta dinâmica intelecto-emocional não significa necessariamente que as tentativas subsequentes tenham o sucesso ideal desejado de conseguir identificar e explorar as inspirações originais, pois novamente, estas tentativas também afetam a compreensão (e sua expressão na fala, escrita etc.) do entendimento de Torá, assim como explicado também sobre o princípio de incerteza de Heisenberg. Mas, o esforço emocional na tentativa de garantir a integridade das luzes originais é vital, pois isto é uma luz ela mesma que é chamada de Ór Hozer (“A luz que retorna/refletida”). De fato, ela retorna ao “alto” e se difunde na mentalidade mais elevada, afetando assim a mente, chegando até ao nível mais alto do intelecto que é kéter – a origem das vontades. Este é um processo fundamental de amadurecimento em geral e também da própria ideia enraizada na kedusha/santidade do estudo e revelações da Torá em questão. Deste modo, quando a luz dos insights toca o nível emocional, por assim dizer, ela retorna para o séchel/intelecto no grau de chochmah com novo vigor – reenergizado e expandindo/amadurecendo o séchel. Isto não significa que a mesma estrutura mental possa ser integralmente recuperada, mas sim que novas vertentes dos insights poderão ser reveladas devido à expansão da mente causada pela Ór Hozer, ou até mesmo novos insights dentro da mesma estrutura original, causados por um novo fluxo. Em última instância, a matriz original (ou seja, as primeiras ideias que formaram o pensamento sobre um assunto em questão) se expande antes de ser desenvolvida em binah. Isto é amadurecer. É importante afirmar que a inspiração essencial de chochmah não é perdida, baruch Hashem. E por isso o tempo é (praticamente) irrelevante para o indivíduo conectado com a Torá em termos da lembrança da estrutura original das ideias. E a pessoa pode então guardar esta matriz na mente, pois ela detém os pontos de luzes essenciais. O desenvolvimento no nível em que ele ocorrer, opera então como uma ferramenta intelectual que “abre e expande” estes insights originais mesmo em um tempo posterior, sempre que necessário se D-us quiser.
Agora, quando esta intensa dinâmica mental é unicamente causada pela ligação sincera e profunda do indivíduo com o estudo da Torá sem vestígio algum de motivos ulteriores (como a busca por sabedoria, kavód/desejo por reconhecimento etc.), então todas as “sementes originais” do pensamento representam uma real oferenda a Hashem. Elas então são literalmente as “primícias de teu grão, de teu mosto e de teu azeite, e a primícia da tosquia de tuas ovelhas”, entregues em devoção passional a Hashem, pois elas “darás a Ele” em primeiro lugar. E quando isso ocorre, a pessoa então recebe entendimentos do Céu, o reflexo da bênção de Hashem que ilumina a pessoa. E somente quando isto ocorre, existe real “recebimento”, que em Hebraico é קבלה Cabalá, com guemátria absoluta 137, a mesma da guemátria katán de todo o verso sobre as primícias.
E está escrito, ולהבדיל בין הקדש ובין החל ובין הטמא ובין הטהור Ulehavdil bêin hakódesh uvêin hachól uvêin hata-mê uvêin hatahór, “Para distinguir entre o santo e o profano, e entre o impuro e o puro” (Vayicra 10:10, Shemini). Este passúk/verso ensina algo da essência da Torá, a saber, que o mundo físico é um domínio de misturas entre o bem e o mal, e que a pessoa precisa inquestionavelmente aprender através da Torá a caminhar somente pelo Dérech Tóv/Caminho Bom, que é estabelecido através das leis que separam e distinguem o que é o bem e o que é o mal. Agora, misticamente, o número 320 é derivado das 288 fagulhas da luz Divina que caíram do mundo de Tohu e se tornaram “incorporadas” no tecido dos mundos inferiores, incluindo o nosso, como a consciência auto-orientada e o egocentrismo. A este número (288) é adicionado o número de vezes (32) que o Nome Elokim – o Nome que significa o julgamento Divino e a severidade – aparece na história da criação (no início do livro do Bereshit/Gênesis). Portanto, 288 + 32 = 320. Em Cabalá, os chamados “320 estados de severidade”, significam a negatividade e egocentrismo intrínsecos da criação desde a “queda” espiritual que resultou do pecado primordial no Gan Éden/Paraíso, e sobre o qual é a nossa função “neutralizar” (estas severidades) através de eliciar o amor e misericórdia Divina. De modo mais específico, o número 320 é significativo como o número de estados de julgamento (guevurót) em Binah. Como é sabido, Binah (associado ao inteleto como o atributo da compreensão racional/lado esquerdo do cérebro) precisa evidenciar a propriedade do julgamento na maneira em que metodicamente constrói a visão completa do mundo a partir do insight seminal de Chochmah (associado ao inteleto como o atributo da sabedoria intuitiva/lado direito do cérebro), tal como afeta a visão prévia do mundo, antes deste processo de julgar/discriminar. Veja, cada detalhe da visão prévia do mundo é avaliada na luz do novo insight, e assim modificada, aceita ou rejeitada, dependendo de como ela mede em relação à nova verdade que foi alcançada através do processo analítico. Esta é a síntese da expressão mais refinada do processo de julgamento, que permite intelecção da realidade racional revelada. Esta “cooperação” entre a sabedoria intuitiva e a compreensão racional é sempre liderada pelo insight do pensamento, que na essência é Chochmah (ou Aba). Portanto, através deste processo sublime, os estados de severidade são mitigados (ou “adoçados”). Ou seja, a visão retificada da realidade racional ainda que constantemente precise julgar os elementos em questão, só atinge o retificação quando equilibrada com a sabedoria elevada intuitiva. Saber como julgar a realidade através desta dinâmica é adoçar a realidade, significando o neutralizar destas “severidades” do mundo. E isto é tikún/aperfeiçoamento. Agora, incrivelmente, vemos que a guemátria ordinal do passúk citado é 320. De fato, o termo בין bêin é a raíz da palavra binah, que significa “entre”, ou seja, julgando/avaliando “entre” uma coisa e outra. Portanto, aqui a Torá nos ensina que para “adoçar” as guevurót é vital saber com conhecimento específico, como julgar para retificar a realidade, e isso ocorre quando a pessoa distingui entre o santo e o profano, e entre o impuro e o puro, assim como definido absolutamente pela Torá e não pela avaliações e opiniões egocêntricas da pessoa.