VAYISHLACH: “INTOLERÁVEL TOLERÂNCIA”

Um vórt (“breves palavras de Torá”) sobre o Bereshit 34:1, parashá Vayishlach 5774.

(Música: Coral com o Reb Yermiah Damen cantando Ani Ma’Amin, comemorando o resgate do Rebe de Bélz anterior e seu irmão o Bilgorayer Rov, pai do Rebe de Bétz atual. Eles se salvaram do holocausto nazista e chegaram em segurança em Éretz Israel no ano de 1944).

tzedakah

4 pensamentos sobre “VAYISHLACH: “INTOLERÁVEL TOLERÂNCIA”

  1. Pela Graça de D-us,

    Saudações Rabino Avraham e amigos desta comunidade.

    É com alegria que venho trazer um singelo comentário sobre a aula “Vayishlach 5774”.

    O Mestre Avraham inicia a aula falando sobre um trecho dessa Parashá que fala da história de Diná. Diná um dia saiu para passear e se encontrou com Shechem, um príncipe daquela região, filho de Chamor, o Chiveu. Shechem viu beleza em Diná e a violentou. Em momento seguinte, Shechem conta para seu pai que se encantou por ela, querendo justificar seu ato e pedindo que seu pai o ajuda-se para que ela pudesse tornar-se sua esposa. Explica o Rabino que o fato dela ter sido violentada permanece, independente das escusas e sentimentos de Shechem. Recorda então, as palavras do Rabi Yossef, dizendo que a família de Diná considerou esse ato como uma hostilidade a toda a casa de Ya’acov, o que pode se notar, quando mais adiante, os filhos de Ya’acov abateram todos os homens da cidade de Chamor, em justiça ao ato proferido contra a irmã deles. O Rabino Avraham salienta que é necessário investigar essa reação dos filhos de Ya’acov. Comenta que apesar de Chamor desejar cumprir a demanda de Ya’acov de circuncisar todos os homens de sua cidade para que eles pudessem fazer parte da casa de Ya’cov, em momento algum o povo de Chamor se manifestou contrário à atitude de Shechem. Isso nos ensina que, se uma comunidade se cala ou consente perante um ato perverso de qualquer espécie, essa comunidade se torna tão culpada quanto aquele que comete o ato. Nas palavras do Rabino: “a conspiração do silêncio é tão negativa quanto a conspiração da ação”.

    Entendo minimamente que o Rabino toca em uma questão muito delicada e muito latente nos dias de hoje. Por um lado, vemos um avanço da possibilidade de denúncias através do avanço dos meios de comunicação e dos aparatos tecnológicos, que permitem a possiblidade de fácil divulgação e até criação de mobilizações contrárias as injustiças. Por outro lado, vemos muitas vezes uma força que leva-nos a nos calar, por exemplo, através de leis que protegem relações ilícitas, favorecem empresas com ações ilícitas ou ainda defendem a “liberdade religiosa”, que acaba por ser um entrave contra a indignação perante práticas religiosas nefastas como o casamento com crianças e outros absurdos, D-us nos livre. Porém, além disso, no nível que consigo compreender, essa também é uma forma de atentarmos para as mínimas coisas no nosso dia a dia, nas nossas relações para com os outros, quando toleramos conversas maledicentes, atos preconceituosos etc. E também para com nós mesmos, quando silenciamos nossas consciências frente as nossas ações indevidas, como desperdício de recursos naturais, qualquer forma de idolatria ou qualquer que seja o mal uso das vestimentas de nossa alma, i.e., pensamentos, palavras e atos, Chas v’shalom. Quando assim o fazemos, permitimos que essas atitudes continuem a ocorrer, e nesse caso, fica claro como o silêncio e a ação são a mesma coisa, o que se aplica em outros níveis como o citado pelo Rabino no nível social.

    Prosseguindo na aula, o Mestre Avraham explica que a indignação dos irmãos de Diná é um arquétipo da indignação contra a injustiça. Embora nesse caso tenha sido apenas contra um ato criminoso, na essência da ideia, isso se aplica a qualquer desvio das Leis Divinas. Porém, mantendo o escopo nos atos criminosos, o Rabino cita que essa é a gênese do comportamento que ocorreu na Alemanha Nazista. Elucida-nos que certamente não era a totalidade dos alemães na segunda guerra que eram nazistas, tendo existido inclusive uma “integração” da comunidade judaica com os vizinhos alemães em certo período. O cerne da questão, todavia, é que os comportamentos tolerados por um tempo por uma comunidade (como no caso dos Chiveus), com a passagem do tempo, esse comportamento passa a se tornar um padrão aceitável, perdendo-se até mesmo a força de resistência contra esses atos, o que ocorreu com os alemães, que acabaram sendo “convertidos” a doutrina nazista por terem iniciado tolerando esses atos nefastos, e mais tarde, toda a nação acabou agindo de acordo com essa ideologia. Começou com a conspiração do silêncio e terminou com a conspiração mais terrível conhecida pela humanidade.

    Novamente trazendo para o nível pessoal, dentro de minha pequenez, entendo que essa conspiração ocorre dentro de nós, e os atores, são as muitas personalidades do nosso ego, que buscam nos calar a consciência e nos trazem milhares de justificativas e racionalizações. Tendo vivido essa situação, gostaria de compartilhar uma situação em que a lógica apresentada pelo Rabino ocorre a nível pessoal. Me refiro ao uso de drogas, quando uma pessoa inicia a utilizar alguma droga, seja bebida, cigarro, ou drogas ilícitas, no primeiro momento sua consciência e até mesmo seu corpo não se sentem agradadas com a situação, mas se não ocorre uma força de indignação perante essa força negativa que começa a invadir-nos, com o tempo vai se perdendo a resistência perante essa energia, a qual passa a nos consumir e por fim, nos tornamos “doutrinados” pela mesma. Nesse sentido, entendo que essas ações criminosas são como drogas sociais, que geram patologias sociais, as quais se não tivermos coragem para nos impormos contrariamente, com o tempo acabamos ficando de mãos atadas e por fim até mesmo agindo de acordo com essa situação.

    O Mestre Avraham novamente alerta-nos: “A tolerância sobre o mal é tão ruim quanto o mal ele mesmo”. Ou seja, uma pessoa é responsável pela outra, e esse é um princípio básico da humanidade em geral. De acordo com o Rabino, devíamos todos ter essa percepção da existência de uma teia de responsabilidade mútua. Do indivíduo para comunidade e vice-versa. Afinal, pergunta ele, “quantos antissemitas haviam no início dos anos 20?” Poucos, mas ninguém se opôs a eles, e o que acabou ocorrendo que com o desenrolar dessa permissividade, foi o extermínio planejado friamente de toda uma nação sendo algo tolerado, o que demonstra o preço pela omissão. Ocorre, conforme o Rav nos explica, que a negligência é o outro lado da moeda do abuso. E foi por isso, que os homens da casa de Ya’acov executaram os homens da casa de Shechem, fazendo justiça contra a violação sofrida por Diná quando ninguém mais o fez. Por fim, somos exortados que a indignação e a coragem para se opor ao mal em sua raiz, é fundamental para qualquer um que busca retidão e também, para que uma nação seja abençoada, e que assim seja para todos nós, se D-us quiser. AMÉM.

    Com essa explicação moral da passagem, posso perceber, de acordo com meu pequeno nível de consciência, que todos os que se calam, são tão responsáveis moral/espiritualmente quanto os que agem, e por isso todos da cidade foram executados. Nesse sentido, entendo minimamente que essa energia de negligência, sendo o outro lado do abuso, é como uma nuvem que impede o fluxo da luz Divina na Terra. Dessa maneira, ao agirmos de forma negligente, permitimos que essas nuvens espessas também encubram nossas almas, e assim vivemos na mesma escuridão daqueles que agem contra as leis de D-us, que D-us não permita. É necessário, portanto, vencermos o nosso ego e a nossa yetzer hará, não mais nos vendo como separados dos outros, mas sendo focos de luz (através de ações que façam valer a justiça) dentro dessa teia psíquica e de responsabilidade mútua, permitindo assim, que as bênçãos de Hashem possam chegar até nossas vidas e a nossa nação, nos auxiliando a descobrir nosso papel pessoal e auxiliando no Tikum Olam, se assim D-us quiser, AMÉM.

    Mais uma vez, podemos perceber a importância de saber retificar aspectos opostos. Nesse caso, a bondade e a severidade, pois, ao agirmos com severidade contra o mal, praticamos um ato de benevolência, não permitindo que o mal se propague impunemente. Assim sendo, agradeço ao Rabino Avraham por nos instruir e auxiliar nesse processo de retificação.

    Peço desculpas por qualquer erro que eu tenha cometido, me colocando, portanto, em posição de retificação.

    Desejo a todos tudo de bom e doce! Shalom!

    André Luis Karpinski

  2. Pela Graça de D’us.

    Prezado Rabino e Prezados Amigos:

    Peço permissão ao Rabino Avraham, para comentar sobre o presente shiur, com a transcrição da aula e o comentário, ao final do texto.

    A aula se inica com o Rav trazendo o relato da Torá, sobre a história de Diná, filha de Lea, que está em Bereshit 34:1. Segundo o mestre, está escrito que Diná saiu para passear e, no caminho, encontrou Shechem, filho de Chamor, um chivita, que era um príncipe daquela região. Shechem gostou de Diná e a violentou, e fala a seu pai o quanto ele se apaixonou por ela, implorando que ela se tornasse sua esposa, ocorrendo o diálogo entre Chamor e Ya’acov, para tentar negociar a situação, com os maiores detalhes do relato descritos na Torá. Baseado nas palavras do Rabi Yossef Soloveitchik, os irmãos de Diná consideraram este ato como uma hostilidade à toda a família de Ya’acov. O mestre explica que, de acordo com a leitura do Chumash, mais adiante, os filhos de Ya’acov foram à cidade de Chamor e lá abateram todos os homens, em um ato de vingança. O Rav afirma que é preciso investigar a reação dos irmãos de Diná.

    O Rabino ensina que, quando se lê na Torá esta história, se destaca que, apesar de Chamor desejar cumprir com a demanda de Ya’acov, de que todos os homens de sua cidade fossem circuncidados, se assim ele quisesse uma união com a casa de Ya’acov, em nenhum momento o povo de Shechem se manifestou contrário ao ato de violência. Em outras palavras, explica o Rav, se uma pessoa comete um crime e a comunidade não rejeita esse indivíduo, ou se uma pessoa afirma, em seu discurso, ódio preconceituoso, e a comunidade não o condena, nem tenta isolá-lo ou eliminá-lo de alguma maneira, a conspiração do silêncio é tão negativa quanto a conspiração da ação: eis a questão, declara o Rabino. A ira dos irmãos de Diná, que, segundo o mestre, é um arquétipo dessa postura, provém da indignação contra o silêncio, em que um ato criminoso ocorre, e ele tenta ser acobertado por outras “camadas” ou, de acordo com o Rav, até mesmo políticas, e ato em si é colocado como que “debaixo do tapete”. Apesar de se estar tratando de um ato criminoso, na essência da ideia, ensina o Rabino Avraham, isso deveria valer para todo e qualquer ato, que contrarie as leis de D’us, sendo este um escopo mais abrangente, traz o Rav. Em se tratando de atos criminosos, o Rabino explica que essa situação, descrita na Torá, pode ser entendida como a gênese do comportamento que ocorreu na Alemanha Nazista. Nas palavras do mestre, não é razoável pensar que todos os alemães eram nazistas na Segunda Guerra Mundial, na verdade havia uma “integração”, entre a Comunidade Judaica e os seus vizinhos alemães. O mestre explica que o problema central, no início, e que acabou se deflagrando em outros níveis, foi que, assim como Shechem e seu pai Chamor, e todos os seus em sua cidade, os comportamentos errados foram tolerados, e algo que é tolerado por um tempo, a tendência é que se perca o sentido de tolerar, e esse algo se torne um padrão aceitável e, com o tempo, a pessoa se “esfria” e se torna passível de ser moldada, pela continuação das causas e efeitos que ela tolerava. No caso dos alemães, prossegue o Rabino, muitos deles foram convertidos à doutrina nazista porque começaram a sua postura tolerando isso, ao que, no auge desse poder nazista, uma nação inteira agia dessa maneira, ou seja, tudo começou como uma conspiração de silêncio, e terminou como a conspiração e ação mais terrível da humanidade. O Rabino conclui afirmando: a tolerância sobre o mal é tão ruim quanto o próprio mal, pois uma pessoa é, no fundo, responsável pela outra, o mestre ensinando que, além de esta ser uma verdade judaica, é, também, um princípio básico da humanidade, em geral. Segundo o Rav, o mundo todo existe através de uma teia de responsabilidade mútua, do indíviduo pela comunidade e vice-versa – é um princípio universal. O Rabino pergunta: quantos antissemitas estavam na Alemanha no começo dos anos 1920? Provavelmente um grupo muito pequeno, continua o Rav, mas ninguém tentou se livrar deles, e a tolerância foi tão intensa que, no final dessa história, o extermínio sistemático, calculado e frio de todo um povo foi tolerada – esse é o preço da omissão, ao que o Mestre adverte: a omissão é o outro lado do abuso, e foi por isso que a casa de Ya’acov acabou executando os homens da casa de Shechem, porque ele cometeu um ato de roubo, sequestro e violência sexual e, apesar de eles saberem disso, Shechem não foi condenado por ninguém. A lição que o Rav traz: é fundamental aprender a ter indignação sobre o mal, sendo este um ato de dignidade.

    Eu já fui alguém de natureza extremamente beligerante, que discutia e buscava impor o meu ponto de vista, e não me lembro de muita coisa ter dado certo para mim, nessa época. Com o tempo, aprendi a ser alguém silencioso, sem reações reveladas, como que indo para o outro extremo deste meu antigo comportamento. Diante do que o Rav explicou neste shiur, surgiram algumas dúvidas: em um trabalho de rebaixamento de ego e retificação, até que ponto eu posso ir? Há um adágio popular que diz: “As pessoas fazem com a outra o que a mesma permite que se faça com ela”. Me lembrei deste dito quanto ouvi, no shiur, sobre a questão da Alemanha Nazista, guardadas as devidas proporções, pois estou trazendo isso para a minha pequena realidade, e jamais haverá justificativa para a atrocidade cometida pela Alemanha, na Segunda Guerra Mundial, em relação ao Bnei Yisrael. Não tenho estofo para discorrer sobre isso em particular, há meandros dos quais não tenho nível para apreender, mas sou absolutamente solidário ao Povo de Israel, e a qualquer vítima de abuso, seja ele de que natureza for. Retornando ao meu dia-a-dia, o que me desafia é o entorno, sempre salientado pelo mestre nos shiurim, que cerca um aspirante a noético: muita lashon hará, grosseria gratuita, falta de educação, malícia e ambiente pesado. Outra dúvida: eu me afastando de certas pessoas e situações, me recusando a tratar de certos assuntos (baixos), assumindo uma postura discreta e silenciosa, como venho fazendo, estaria sendo conivente com isso, incorrendo na conspiração silenciosa, trazida pelo Rav nesta aula? Há um momento para se indignar, quando se trata de aspectos tão sutis como os que expus? O curioso é que, mesmo tendo esta postura, há quem implique comigo, ao que o Rabino afirmou, na correção de um comentário de outro shiur, que este é o ódio gratuito experimentado pelo Povo Judeu. E concluo que foi a minha vida inteira assim, embora tenha encontrado e, Graças a D’us, sigo encontrando, quem simpatize comigo. Entre ser passivo ou invasivo, leniente ou intransigente, estou tentando me equilibrar, pois é isso que busco: equilíbrio. Eis mais um shiur do mestre, de muitos shiurim esclarecedores e santos, que está me ajudando a compreender melhor essa dinâmica. Baruch Hashem.

    Uma boa noite ao Rabino Avraham.

    Márcio

  3. Shalom Rabino Avraham,
    Se reflito honestamente e sem medo no shiur estudado, sou forçado a constatar que a pior tolerância reside em face do mal que há em mim, que acostumei a ter como parte do meu ser e que a vaidade do ego não permite que eu veja como o que de fato é. São concessões que muito facilmente cedo em razão da cultura em que fui criado e (de)formado, mas que se apresentam aos meus olhos como normais. Mesmo tendo sido instruído e advertido dos riscos espirituais que os hábitos seculares aninham, acabo deixando-me autoiludir e permaneço submerso sob o mal que guardo em mim. Até quando serei tolerante comigo mesmo?
    Shalom

  4. Shalom estimado Rabino Avraham e estudantes do site Beit Arizal,

    Peço a licença do Rabino Avraham e dos amigos para comentar este shiur:

    Entendo que o mal é muito forte e astuto e é impossível derrota-lo apenas com boas intenções, e hoje vejo que as pessoas honestas de verdade, além de intenções retas elas precisam de grande coragem e astúcia para lidar com o mal de modo e não ser complacente com ele, emulando os filhos de Ya’acov que com coragem e astúcia derrotaram o mal de Chamor e seu filho Shechém.

    O Mestre lembra que na década de 20 ainda havia poucos nazistas (que seus nomes sejam apagados) na Alemanha e em poucos anos eles cresceram muito dominando toda uma nação, aqui aprendo quão rápido cresce o mal quando o silêncio complacente impera não denunciando e impedindo o mal de avançar. O Mestre ensina em suas obras que o medo mata a mente, é preciso vencer o medo ou ele vence a pessoa que se cala diante do mal, que D-us não permita. A sociedade secular sofre com a influência nefasta da inversão de valores chamando o mal de bem e o bem de mal. Em meio a este quadro tão difícil fico temeroso e me questiono: Até que ponto ainda sou complacente com o mal? Então este shiur me dá a oportunidade de grande introspecção para ver o que preciso mudar urgentemente em meus comportamentos para repudiar o mal com mais intensidade, que D-us permita. Muito obrigado por esse shiur Rabino Avraham, tudo de bom!

    Respeitosamente, Emerson

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